O clássico e os segredos da “táctica emocional”

01 de Dezembro de 2007

O clássico e os segredos da “táctica emocional”

Não existem fórmulas científicas para preparar uma vitória ou uma grande exibição. Em campo, os jogos (e os jogadores) ganham vida própria.

Jesualdo e Camacho gostariam de ter, na relva da Luz, alguém com capacidade para, num abrir e fechar de olhos, tornar simples um jogo que tem todos os contornos para ser “fechado”. Após um terço da época, FC Porto e Benfica já têm as suas identidades definidas. Mais “táctica”, a do FC Porto. Mais “emocional”, a do Benfica. Duas definições que espelham o perfil de cada treinador. Cada equipa tem, no entanto, os seus mais fortes candidatos a heróis ou vilões do clássico. A forma como o Benfica começa e acaba os jogos são os momentos mais sinceros do seu futebol. Olhos nos olhos, sem especulações tácticas. Camacho preconiza uma forma mais simples de abordar o jogo. O primeiro remate, o primeiro lance de perigo, a primeira falta, o primeiro protesto com o árbitro tem de ser nosso. Era esta a cultura do seu Real Madrid enquanto jogador. Na Luz, em geral, o último remate também é do Benfica.

Os golos nos últimos minutos não são, por isso, obra do acaso. Mesmo com o jogo a fugir não é comum ver-se, nos grandes planos, semblantes assustados nos jogadores benfiquistas, mas começa a ser excessivamente sobrenatural meter Adu sempre tão perto do fim. No Real, Camacho vivia entre jogadores que também tinham sabedoria para colocar tacticamente o jogo nos locais mais convenientes para tudo isto ter em campo mais do que um mero sentido emocional. O futuro da época benfiquista depende muito desse crescimento táctico. Com Petit, a equipa resgata uma autoridade que a pode agarrar melhor. Dar-lhe maior consistência entre os longos minutos que vão desde o início ao fim do jogo. Fica mais forte no momento de recuperação e dá sentido táctico sem bola ao carácter que, na fórmula-Camacho, serve sobretudo para atacar.

O clássico e os segredos da “táctica emocional”Uma das melhores formas de ver como uma equipa está a defender é olhar para a colocação da sua linha de quatro defesas quando a bola está longe. Quanto mais essa linha estiver recuada, e assim mais próxima da sua própria área, pior ela estará a defender. Isto porque esse mero posicionamento condiciona desde logo o resto da extensão da equipa ao longo dos seus sectores. O meio-campo fica, então, com medo de subir, pois se a defesa não o acompanhar, a ligação entre sectores parte-se e cria-se um espaço vazio onde o adversário pode penetrar e criar perigo.

Por isso se fala, no tal “bloco baixo”. Penso aqui na exibição do FC Porto em Liverpool. Frente a adversários “pressionantes”, a equipa nunca consegue fazer subir a sua linha defensiva. Fica encurralada na sua área. No tal “bloco baixo”. Não por opção, mas por incapacidade de o fazer subir. É impossível, nestes momentos, não pensar nas diferenças entre este FC Porto e o da época passada. Órfão do “perna-loga” Pepe que, em campo, quase levava toda a defesa por uma trela, fazendo-a a subir, o sector perdeu velocidade para não ter medo em subir no terreno e falha o rigor posicional para os cortes mais simples. Façam então o exercício sugerido no inicio do texto. Olhem para a linha defensiva azul-e-branca quando a bola estiver bem longe. É ai que ela se prepara para defender bem ou, pelo contrário, sofrer a defender.

O jogo de Liverpool foi, nesse sentido, uma lição implacável. Durante o jogo, Jesualdo mexe mais nos espaços tácticos, do que Camacho, mais virado para injecções de motivação. Quando mexe, mais do que mudar tacticamente, muda as características dos jogadores. Tacticamente, será um duelo entre 4x2x3x1 e o 4x3x3. Apesar dos desequilíbrios, o Benfica terá, pelas características dos jogadores (e hábitos de jogo e treino) mais possibilidades de, durante o jogo, esconder-se atrás do 4x4x2. Basta recuar um avançado, algo que o FC Porto só consegue com Lisandro. Lançados os dados, ganha quem marcar o ritmo.

A prisão do “ADN”

O clássico e os segredos da “táctica emocional”Em contraste com a força emocional da fórmula-Camacho, a forma de jogar do FC Porto é, claramente, mais “táctica”. Para respirar necessita, porém, de uma atmosfera de velocidade. Fica a sensação de que a equipa precisa de estímulos exteriores para crescer e ir atrás do jogo. Não sabe jogar em ritmo lento. O ADN da fórmula-Jesualdo tem a velocidade colada a si. Sempre que tenta tornar o jogo mais lento, para circular a bola e adormecer o adversário, acaba involuntariamente por desactivar os seus circuitos vitais. Perde então o controlo do jogo, passa a defender perto da sua área e deixa de impor a sua mais valia táctica. O choque com a fórmula-Camacho, isenta de receios mas com menor argúcia táctica, deverá levar jogo quase sempre para um ritmo mais alto. Seria o ideal para Jesualdo. O mistério reside em descobrir até onde Liverpool abalou o equilíbrio emocional da equipa. No Benfica, a dúvida está em saber se o poder mental será acompanhado do crescimento táctico. Um jogo ideal para entender o futuro.