O “Código dos Três Defesas”

08 de Fevereiro de 2018

A verdadeira história tática dos três defesas é uma história de risco de alto nível táctico. Outra coisa são as características dos jogadores e a articulação de jogo. Ou seja, não são os jogadores que por si só fazem as posições. As posições em que jogam é que fazem muito do que ele pode (e como pode) jogar durante o jogo.

Jesus driblou a questão ao dizer que não jogou com três centrais porque Piccini não é central, é lateral. Sem dúvida. Nessa linha de pensamento, porém, teria jogado com dois laterais-direitos (Piccini e Ristovski) o que, naturalmente, não aconteceu.

A intenção de fechar a equipa a “5” em largura (num sistema que começava em 3x4x2x1) era, no plano estratégico, uma boa ideia se depois soubesse... perder a bola. Atenção, não me enganei. Não queria dizer saber ter a bola. Isso, estes jogadores sabem, mesmo que seja posse pela posse, o problema é que não estão habituados a ficar posicionados nesta estrutura após... perderem a bola a atacar. Foi esse o problema leonino na primeira parte de domínio portista.

A largura e a basculação nesta estrutura a “3” é muito difícil de executar e só é possível com jogadores verdadeiramente de top tacticamente e rotinados nestes princípios de jogo (o que não acontece com o atual Sporting que, por isso, melhorou o seu próprio equilíbrio e capacidade de desequilibrar o adversário quando resgatou as estruturas habituais e dinâmicas sequentes).

 

Enquanto jogou com a ideia de três defesas não conseguiu, quando perdia a bola a atacar, o controlo da profundidade em largura (pois tinha os laterais projetados, sobretudo na esquerda, direita portista, por onde entravam Corona, Ricardo a subir e Marega a surgir).

Só com jogadores muito rápidos a recuperar (Acuña, ala, dobrou/compensou mais vezes do que Coentrão) ou fazendo de forma perfeita a pressão alta (coisa que não fez ao baixar linhas/bloco estrategicamente) é que conseguiria controlar esses espaços invulgarmente vazios (pois na estrutura habitual estão cobertos por natureza). O FC Porto parecia mesmo preparado para atacar a profundidade nas costas deste diferente processo defensivo leonino (sobretudo na transição e depois na reorganização tardia).

A história dos três defesas se faz-se sem trabalho táctico profundo acaba por se virar contra a própria equipa em jogos deste nível. Não digo que foi de improviso, mas foi “trapézio sem rede táctica” na maior parte das vezes. Pode-se, bem treinado, partir daqui para uma superioridade numérica em todos os locais do terreno (nos desdobramentos e diferente momentos do jogo, atrás, à frente e meio-campo) mas isso só com muita mecanização adquirida.