O coelho e a cartola

14 de Junho de 2016

No principio, era a bola. No fim, era a bola outra vez. Sempre a bola. A palavra ainda não apareceu mas estando a falar de futebol desta forma, só poderia estar a falar da Espanha. Da sua forma de jogar, de um estilo que faz da bola quase “propriedade privada” no jogo, mas que, nos últimos tempos, sente a partida de alguns dos seus maiores “profetas do toque”. A crise existencial do estilo necessita de novos protagonistas.

Ao ver, contra a República Checa, Iniesta (no 4x3x3) deixar posições mais adiantadas ou descaídas na ala para recuar e passar a ocupar a “casa tática desabitada” que era de Xavi, viu-se como o estilo resgatava um pensador ideal. Contra um onze checo, que á medida que o tempo ia passando com 0-0, cada vez mais se “entrincheirava” atrás (num plano inicial em que moraram dois laterais-direitos, Kaderabeck e Selassie) o estilo espanhol não perdeu a coerência de passe e circulação com Iniesta a conduzir a equipa. Uma batuta em 68% de posse de bola.

Neste domínio de posse, Silva não fugiu á responsabilidade de mesmo a partir da faixa querer ser um nº10. Mais do que Fabregas, preso ente duas posições (ou linhas) no meio-campo, sem resolver se constrói ou define. Ou seja, se joga mais perto do ponta-de-lança ou de Iniesta, associando-se para o passe curto.

Morata é hoje um º9 com uma dimensão atlética que assusta defesas (impressionante a sua transformação física em dois anos de Itália em relação a toda a vida anterior em Madrid) mas é difícil procurar rematar quando todo aquele jogo pede mais um nº9 a jogar de costas, a dar em apoios a quem vem desde trás.

O golo acaba por aparecer num passe/centro milimétrico de Iniesta (golo de Piqué, festejo de Shakira) e dessa forma o lance decisivo respeitou o principio de tratar bem a bola. O estilo espanhol continua, portanto, futebolisticamente vivo, mesmo na vontade excessiva de querer entrar com a bola pela baliza dentro. Um momento em quem se espera tudo mas que pela forma como todos parecem ter um íman nas chuteiras que atrai a bola, tanto pode tirar o coelho da cartola, como amassar a cartola com o coelho lá dentro. Faz toda a diferença. Para o coelhos e para as equipas.

A “máquina” move-se                                                                                                                                   

A “máquina” alemã entrou em carburação neste Europeu. Sem pestanejar, Low passou (após a lesão de Rudiger e com Hummels limitado) do sistema de três defesas-centrais para a clássica “linha de 4” defensiva, num 4x2x3x1 que colocou Gotze como “falso 9”.

Se na frente esta questão fica dependente apenas do afinar das trocas posicionais entre Gotze, para cair mais na faixa ou recuar uns metros e dar o espaço central às diagonais de Draxler, rupturas de Muller ou aparições de Ozil (o trio mágico-demolidor que, no sistema, joga/parte na suas costas), atrás, no inicio de construção de jogo, que costuma ser feita mutas vezes por um central a sair, assistiu-se à criatividade de construção desde trás de Kroos.

Ou seja, quando a equipa começava a construir a partir dos centrais, Kroos recuava e era então quase ele na posição de central pela esquerda que recebia a bola e iniciava a saída em construção, permitindo assim manter a dinâmica de saída de bola que na defesa a “3” projeta imediatamente os laterais na frente (sobretudo com as subidas de Hector, na faixa esquerda). É a chamada criatividade táctica da máquina (através da visão de Kroos)