O «coração» junto à bola

25 de Dezembro de 2008

O «coração» junto à bola

O Boca campeão, o River em último. Dois históricos nos extremos da realidade. Um campeonato lunático que também colocou na luta pelo titulo uma equipa, o Tigre, que voltou à I divisão após 27 anos em Ligas secundárias. Junto com o San Lorenzo, terminaram todos com os mesmos pontos. O triangular do titulo que disputaram foi ideal para perceber o momento do futebol argentino de clubes. Primeira impressão: está, claramente, tacticamente mais europeizado em comparação com o brasileiro.

Já desconfia dos sistemas de três centrais e laterais ofensivos porque percebeu como isso pode desequilibrar o onze na hora de defender. As três equipas jogaram todas com clássica defesa a «4». O Boca de Carlos Ischia, e o Tigre, de Diego Cagna, mais em 4x1x3x2, o San Lorenzo de Miguel Angel Russo, num 4x4x2 mais clássico.

A forma como o Tigre jogou a final, precisando de ganhar por dois golos ao Boca, provou essa inteligência táctica, pois manteve sempre a defesa completa, apostando sobretudo na dinâmica dos médios ala para buscarem a transição em posse (excelente na esquerda o controlo de bola em progressão de Gimenez) soltando depois dois avançados muito móveis, com Lazzato mais forte entre os centrais adversários, sempre apoiados por Morel, o maestro do onze.

O campeão Boca é uma equipa com dois patriarcas no meio campo: Bataglia, o médio defensivo, o clássico nº5 argentino (na Europa é o 6) e Riquelme, o homem que faz chover na hora de fazer passes para golo ou organizar jogo.

Ao lado deles, pibes a nascer que há um ano só caminhavam na equipa de reservas. O guarda-redes Garcia, 21 anos, o central Roncaglia, 21, o ala direito Chávez, 22 e o ponta-de-lança Viatri, 21, que fez dupla no ataque com Figueroa que roubou o lugar a Palácio, um avançado que parece entristecido nos últimos tempos após ter prometido muito. Já vai com 26 anos pelo que a Europa fica cada vez mais longe. Na esquerda, a criatividade de Dátolo faz dele um nome para fixar.

Por entre estas atmosferas, outro avançado que, também incompreendido na Europa, fez durante grande parte da época o titulo andar virado para outras paragens. Bergessio, renascido no San Lorenzo. Marcou 7 golos e fez uma bela dupla no ataque com Silvera, um avançado mais esguio e de área, num onze em que o principal nome a ficar é de um jogador que cai na esquerda e num ápice passa de médio ofensivo para avançado: Barrientos, regressado do frio de Moscovo para reencontrar na relva gaúcha a emoção do seu futebol.

Mas, enquanto a festa rumava á Bombonera, do outro lado da cidade ouvia-se um grito galina, dos hinchas do River. “Fomos os últimos, seremos os primeiros!”. É assim o mítico futbol argentino. Sempre com o coração junto à bola.