O erro primário dos feiticeiros

03 de Julho de 2016

A Bélgica caiu nos quartos-final e os amantes do “futebol mais bonito e criativo” questionam como tal foi possível contra o organizado mas essencialmente combativo Gales. A principal razão está, naturalmente, nesse onze galês, mas olhando o jogo e seus momentos de domínio alternado há outra resposta: a Bélgica perdeu o jogo quando o deixou sair do seu território de estilo criativo e o passou a jogar no território de combate galês.

Ganhou após primeiros 20 minutos de futebol envolvente, com Hazard, De Bruyne e Carrasco aberto num 4x2x3x1(com 10) com mobilidade criativa colectiva-individual, suportados por dois pivots, (Witsel-Nainggolan, a comer o meio-campo em antecipação.

Perdeu após o ritmo de jogo baixar (como sempre sucede perto da meia-hora), Gales subir os índice físicos de competitividade e empatar num canto.

No banco, Wilmots relacionou esse momento do jogo com o... jogo todo e, ao intervalo, fez uma substituição que, pura e simplesmente, retirou a equipa (o seu estilo) do jogo. Tirou Carrasco, o ala que abria e fazia alargar/dançar as marcações galesas, para meter no meio Fellaini, girafa de choque e jogo aéreo para tentar reconquistar o meio-campo através da dimensão física (passando para 4x3x3 com triângulo a meio-campo sem nº 10). Ou seja, meteu o jogo no... território de estilo de Gales.

Após um fugaz arranque com grandes jogadas de Hazard e uma bola ganha no ar por Fellaini, rapidamente Gales percebeu “onde estava agora o jogo”, que saira da relva e do passe/finta para andar mais no ar, no choque/segunda bolas, e... agarrou-o pelo pescoço: baixou estrategicamente o bloco e com a complementaridade de garra (Ledley), passe/transição (Joe Allen) e condução/ruptura desde trás (Ramsey) passou a controlar o meio-campo. Mesmo quando a Bélgica parecia poder ameaçar, mas já não tinha a bola em condições de soltar a sua criatividade.

Mantendo Robson-Kanu “endiabrado” e Bale a voar na frente, chegou sem espantar à vantagem após começar progressivamente a mandar, táctica e fisicamente, no jogo. Ganhou-o em cima da sua qualidade natural e do erro primário dos feiticeiros técnicos belgas que tiveram medo da leveza da sua próprioa criatividade.

Como será Gales sem Ramsey?  

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Vejo-o entre os três melhores jogadores deste Euro: Ramsey. Ele faz jogar mais a seleção de Gales do que Bale. Gere toda a ligação defesa-ataque-defesa, com técnica e rotação táctica. Viu um segundo amarelo e não joga contra Portugal.

Pensar no seu substituto, que acho dever ser Edwards (King seria mais tentar pedir o mesmo a um jogador sem o nível de Ramsey) o mais provável que penso pode suceder, visto Ewards ser estruturalmente um jogador mais de contenção que se irá juntar a Joe Allen e o trinco Ledley no meio-campo será inevitável: Portugal irá defrontar a seleção de Gales, no plano e na estratégia, a mais defensiva e fechada que já se apresentou neste campeonato.

Ou seja, acho que, sem Ramsey, vão endurecer as posições defensivas do meio-campo à defesa (o 3x5x2 ser mesmo um 5x3x2 baixo) e deixar na frente Bale no apoio a um ponta de lança, móvel (Robson-Kanu) ou fixo de choque (Vokes).

Perante uma “oportunidade impensável” de chegar à Final e não vai querer perder expondo-se. Sem Ramsey não tem ninguém parecido para fazer essa saída de bola. Por isso, aposto em que criará uma “caverna táctica”, fecha-se nela e só “sairá para caçar” quando o seu tempo tático estiver melhor no jogo.