O espelho de «Chalanix»

05 de Março de 2008

O espelho de «Chalanix»

Até o bigodão ficou mais branco, a idade não perdoa, e o cabelo de Asterix perdeu-se no mesmo tom, mas há qualquer coisa de irónico vendo-o embarcar como chefe de uma nova aventura do Benfica na Europa. Chalana vem de outro tempo. De outro Benfica. Ainda há dias, passando velhas VHS para DVD, fiquei hipnotizado vendo, no início dos anos 80, o renascimento do Benfica europeu pós-deserto dos anos 70, num jogo com o Fortuna Dusseldorf. Ultimo minuto, 0-0, velha Luz a abarrotar, Alves intercepta um contra-ataque alemão e abre logo para o Chalanix na esquerda. E lá ia ele, cabelo longo e bigode ululante, olhos safados, até parecia mais baixinho do que era, o defesa perdido, e bang!, Golo.

Era a passagem à meia-final da Taça das Taças. Chalana pode ser um treinador de transição. O que ele simboliza tem de ser uma imagem de futuro. Porque é isso que o Benfica perdeu. O passado. E não há nada mais cruel para o sentido da vida. De pessoas ou clubes. É algo que existe para além de qualquer simples treinador. Sem perceber esse pilar –chamem-lhe mística ou politica desportiva- é impossível colocar a questão certa para descobrir a resposta correcta ao problema. O que se passa dentro das quatro linhas é quase sempre o reflexo do que se passa fora delas. Nunca o contrario. O Benfica é um bom exemplo desses jogos de espelhos.

É estranho ver um futuro director-desportivo a conviver no balneário, ainda como jogador, com os mesmos jogadores com os quais, em breve, se vai sentar para discutir contratos. Porque o balneário é a capela sagrada de um clube. Reino do treinador, local de desabafos e confissões dos jogadores entre si. Sobre o jogo, a equipa e a vida. Rui Costa é um nº10 mágico. Poderá ser um excelente elo de ligação balneário-gabinetes. Mas, ninguém consegue ser duas personalidades ao mesmo tempo. Desabafar como colega e negociar contratos como director sem fazer a ponte certa ente estes dois mundos. O último dia de Camacho, as últimas declarações, terá sido o mais fiel da sua presença na Luz. É penoso ver um homem que foi um exemplo de raça do Real Madrid das reviravoltas europeias impossíveis (durante essas semana, quando todos desanimavam, atava as botas antes do treino dizendo “quarta feira, metemos cinco a esses hijos de p…”, e isso ia-se transmitindo a toda a equipa) abandonar o Benfica dizendo que “não consigo motivar os jogadores”. São declarações que vivem para lá das críticas tácticas que se lhe podem fazer. São como o seu testamento futebolístico encarnado.

O espelho de «Chalanix»Um bom princípio para, cruzando o reflexo do passado de Chalana com a dupla personalidade que turva hoje a imagem de Rui Costa, perceber o actual Benfica. As contradições em que vive, as diferenças entre dois tempos. O problema é que, como vi escrito num pano de uma claque argentina, “só entende, quem sente”. Quem, para lá dos nomes citados neste texto, sente tudo isto no actual Benfica?

Ultimo minuto, 0-0, velha Luz a abarrotar, Alves intercepta um contra-ataque alemão e abre logo para o Chalanix na esquerda. E lá ia ele, cabelo longo e bigode ululante, olhos safados, até parecia mais baixinho do que era, o defesa perdido, e bang!, Golo.

BENFICA-FORTUNA DUSSELDORF 1982:

BENFICA-FORTUNA DUSSELDORF 1982: