O estilo (re)cria-se!

08 de Junho de 2012

PLANETA DO EURO (1)

A imagem mais forte que temos de um jogador é com a camisola do seu clube. No passado, era diferente. Hoje, um jogador chega à seleção e traz o ego e hábitos que o clube lhe deu. Não precisa da seleção para o aumentar. Por isso, detectamos pouco a marca dos clubes, isto é, a forma como jogam nos clubes, dentro da seleção, onde jogam de forma muito diferente. Os Europeus e os Mundiais são torneios curtos onde é cada vez mais difícil deixar um traço de distinção claro. E as seleções, como os jogadores, cada vez pensam menos nisso.

Existe, porém, fugas a esta realidade que quer enjaular as ideologias. Pensem em Xavi. Quando começa a jogar, a tocar a bola, ou até mesmo antes quando faz aquele seu movimento típico (reparem bem!) de antes de a receber, virar muito rapidamente a cabeça para a direita e esquerda (vendo onde estão colegas, adversários, espaços, linhas de passe e até o arbitro) para depois a conduzir colada ao pé, logo pensamos que ali está o “estilo do Barcelona” . Também sucede, claro, com o Iniesta, Busquets, Cesc e até, com Silva, que joga no Manchester City, mas é facilmente aculturado pela força da moldura estilística do jogar espanhol.

É diferente com Cristiano Ronaldo. Portugal não tem qualquer ponto de contacto com o Real Madrid. Não é questão de valor. É mesmo questão de mundos diferentes. No jogo, estilo e glamour. Um grande jogador consegue destacar-se em qualquer ambiente mas se a ideia colectiva não o acompanha, fica como num relvado cheio de buracos. Antes de jogar contra os adversários, parece jogar contra si mesmo. Ronaldo não tem na seleção as mesmas oportunidades (espaços e relação de movimentos com colegas) para fazer o mesmo que faz no Real. Até a mentalidade é diferente. Tentará fazer as mesmas jogadas explosivas? Sim, claro. Mas nunca como em Madrid. Porque o estilo, ao contrário do que acontece a Xavi na “SA espanhola”, é outro (indefinido, até).

A solução? Não querer copiar nada, criar tudo de novo. Não é fácil. A fronteira entre a imitação e a identificação é muito ténue. Quando Ronaldo a ultrapassa, toda a equipa irá atrás dele. Não adianta copiar, só criar (inventar).

As “duas vias”

Como para refletir sobre as “duas vias” clubes-seleção com que se depara um jogador pisei o debate sagrado Barça-Real, e o abrigo ou choque que sentem, respectivamente, Xavi e Ronaldo ao chegar às suas seleções, é oportuno resgatar uma ideia de Ramon Martinez, diretor da cantera do Real Madrid. Nela pode estar uma pista para sair desse labirinto. Disse ele que “o Barça forma jogadores para si mesmo. Para o seu estilo.

O Real forma jogadores mais heterodoxos, mais multifuncionais que se adaptam a qualquer sistema ou estilo”. Faz sentido. E é verdade.

Nesse cruzamento, tenho então vontade de meter neste debate outro jogador que penso jogaria nos dois estilos: Ozil, “aprendiz de feiticeiro” turco-alemão. Nunca os seus olhos esbugalhados de camaleão tiveram tanta aplicação futebolística como metáfora de transformação. É dos jogadores que melhor entende o que o jogo precisa e nunca o força a aceitar coisas que ele não quer. Respeita-o (por isso, tanto temporiza, como arranca). É esse o principio do craque: perceber as perguntas que (a equipa e o jogo) lhes colocam e responder em conformidade.