O exército de “El Bicho”

20 de Maio de 2010

O exército de El Bicho

Está muito mais gordo, os anos também passam depressa, até custa reconhecer naquele treinador no banco do Argentino Juniores, novo sensacional campeão argentino, o mesmo médio criativo dos anos 80. É El Bicho Borghi. Os clubes do futebol argentino vivem dias muito difíceis. O River e o Boca estão em crise profunda. Emergem outras realidades.

Estudiantes, Independiente, Banfield e o Argentinos, vencedor do Torneio Clausura, uma conquista que espelhou bem o actual estilo dominante nas canchas gaúchas, dominado pelo chamado lado operário do jogo.

Perdeu-se a marca dos criativos, velhos nº10. O número que manda agora é o 5, o local do pivot. Por isso, o duelo do título Argentinos Jrs-Independiente foi, tacticamente, um duelo entre duas duplas de pivots (o duplo 5, como chamam os argentinos). No Estudiantes, Braña-Veón. No Argentinos, Ortigoza-Mercier. A forma como o paraguaio Ortigoza enche o campo e quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo cansa só de ver.

Mercier, seu companheiro de estrada táctica, segura mais a posição mas também corre a todas as bolas a arrastar a língua pela relva. Com estas duas carraças tácticas a equipa ganhou um carácter lutador que, num futebol essencialmente combativo como é hoje o argentino, fez a diferença na luta pelo título.

O exército de El BichoTacticamente num 3x4x1x2 de raça, Borghi nunca prescindiu dos laterais/alas ofensivos (Prospero-Oberman) que, partindo quase de perfil com o duplo-pivot, subiam e desciam com excelente timing ofensivo e defensivo, servindo uma dupla de avançados móveis (Pavlovic-Calderon ou Sosa) que tinha sempre o apoio de um enganche, o médio-ofensivo central que jogava à frente de Ortigoza e Mercier. Não existe uma estrela criativa indiscutível. Talvez Sosa, extremo de origem, pelos golos e por alguns arranques. Na posição de enganche, Coria assumia sobretudo a chamada condução vertical no corredor central. Em vez de organizar com cérebro ou driblar, procura sempre meter logo a bola nos avançados, desmarcando-os com um bom passe.

O Estudiantes, também metido na Copa Libertadores, era uma equipa mais completa e com maior talento individual. Os avançados Boseli e a La Gata Fernandez, são talentos para a Europa. Não conseguiu, porém, conciliar as duas competições. La Bruja Veron continua a ser um guia espiritual, embora agora mais recuado no terreno. Joga de memória, deixando que El Chapu Braña, a seu lado, corra mais metros por jogo. Mais uma vez, porém, acaba-se a elogiar uma equipa argentina pelo que luta e corre e não pelo que cria e joga. É o maior contra-senso que, neste momento, confunde a genética alma criativa do fútbol argentino e suas melhores equipas.