O futebol-arte contra-ataca

15 de Fevereiro de 2010

O futebol-arte contra-ataca

O futebol-arte é uma causa perdida? Esta será uma das mais perturbantes perguntas do futebol moderno que, cada vez mais, devora o chamado velho futebol dos dribladores. Não falo aqui em romantismos do passado. Falo na aposta num estilo de futebol e, sobretudo, em jogadores que, fazendo da técnica a imaginação, fazem os adeptos, ao vê-los jogar, soltar um sorriso malandro. O Brasil sempre foi o supremo refúgio desse futebol de quimeras.

Os últimos tempos escureceram, porém, muito dessa visão. É, por isso, que, no presente, esses amantes das causas perdidas voltam a abrir os olhos perante o aparecimento de um novo quixotesco onze de arte futebolística. É o novo Santos de Neymar, Robinho, Ganso, André… Em campo, eles fazem de cada jogada, um desafio artístico ao futebol dos tackles e choques.

A filosofia da bola está num dilema. Se pudemos chegar à baliza com apenas dois-três toques (isto é, recupera, passa e mete longo para perto da área) porque vamos perder tempo com 13 ou 14 passes (isto é, jogo apoiado, construído, progredindo no campo, abrindo espaços, até desmontar marcações adversarias). Abundam equipas com o primeiro pensamento. Rareiam equipas com a segunda filosofia. Por isso, ver hoje jogar aqueles moleques é como assistir ao contra-ataque do futebol-arte.

Dorival Junior, o técnico, monta tacticamente um 4x4x2. A principal atracção é a dupla do ataque, Neymar-Robinho, apoiados pelo elegante Paulo Henrique, o Ganso. Neymar, mais do que jogar, brinca na relva. Robinho está muito diferente do jogador que saíra há 5 anos para a Europa.

O futebol-arte contra-atacaRegressou mais robusto, mais musculado. Sente-se dono do território, nariz demasiado no ar, mas continua a encantar, como no jogo de estreia, marcando de calcanhar o golo da vitória ao São Paulo. A apoiar este trio, o experiente Marquinhos e, nas transições, Arouca, deixando apenas Rodrigo Mancha atrás, como 6 cabeça de área. A defesa, porém, já é algo pesada (Edu Dracena-Durval) e os laterais atacam muito (Leo e o adaptado Wesley).

Acusam a equipa (como, aliás, todo o futebol brasileiro de clubes) de ser demasiado lento. Sem possibilidade de competir, em intensidade, com o europeu. Penso que é verdade no início de construção, os centrais saem pouco com a bola e os médios em geral são pouco rotativos (por isso a importância do box-to-box Arouca neste Santos) mas quando, depois, a bola entra na fase ofensiva pura, as mudanças de velocidade aparecem. O mais provável até será, no final, este Santos não ganhar nenhum título. O pragmatismo defensivo tem muita força, mas, neste arranque já conquistou algo mais nobre. São os novos sorrisos do futebol-arte nos templos do futebol paulista.