O futebol do “Ganso”

17 de Agosto de 2010

O futebol do “Ganso”

De cada vez que pega na bola, parece que o jogo pára. É como se entrássemos noutra dimensão futebolística. O Brasil tem alucinado com este estilo que parece saído dos anos 70 (e a Europa já tem as orelhas levantadas em sua direcção) mas, mesmo assim, Paulo Henrique, o Ganso, não é um jogador de análise pacífica. Tem um controlo de bola fantástico, precisão de passe notável, coloca-se no sítio certo (entenda-se espaço vazio) para a receber, mas a forma estruturalmente lenta como faz tudo isso coloca a dúvida de saber como iria reagir este estilo no mais veloz e fechado jogo europeu. Muitos revêem nele um possível Riquelme brasileiro, que também sofreu muito para encaixar no maior ritmo europeu.

É uma dúvida razoável, mas é curioso ver como ela surge na Europa, onde nunca se discute se outro tipo de jogador, tecnicamente mais rudimentar mas com maior rotação e rigor táctico, pode ou não jogar nos seus relvados. Por isso, depois de Ramires, olha-se para os gramados brasileiros e detectam-se muitos jogadores (ritmo e estilo, jogo e velocidade) muito semelhantes: Márcio Araújo (Palmeiras), Sandro Silva (que agora foi do Palmeiras para Málaga), Arouca (Santos), Elias (Corinthians), Hernanes (São Paulo) e, entre outros, Wesley (Santos) que joga agora como meia, como chamam os brasileiros, mas já foi avançado e também a lateral-direito.

O Ganso é outra conversa. Elegante, parece a pantera cor-de-rosa a jogar futebol. Penso nele e recordo outro belo médio que adorava ver no Brasil, mas que na Europa se esfumou, Thiago Neves. Na Alemanha foi sufocado pelo mais alto ritmo de jogo. Não sei se isso também pode suceder ao Ganso. É provável.

Ele não é, no entanto, tão lento como parece à partida. A questão é que ele corre com a bola, entra no espaço, mas precisa sempre de parar para executar o passe, raramente o faz em andamento. É uma pausa curta, mas o suficiente, da forma como é feita, para, no jogo europeu, lhe cair um trinco estilo comboio em cima. No Brasil isso ainda existe pouco e o futebol do Ganso parece que abre clareiras no jogo. A seu lado, entretanto, Arouca e Wesley correm, correm… Mas, atenção, é um jogador solidário, que recua na marcação.

Outra questão é saber em que posição, face às circunstâncias ditas, poderia jogar na Europa. No Santos, joga no centro, a 10, em 4x4x2 com dois volantes atrás, ou num 4x3x3 em que fica no vértice mais subido do triângulo do meio-campo (um desenho mais europeu). A adaptação, no fundo, passa por em vez de receber a bola no pé, passar a receber a bola no espaço à sua frente. Parece uma simples alteração. Não é. É muito complexa, no conjunto de hábitos estilísticos de jogo.

Palmeiras de Scolari

O futebol do “Ganso”Scolari está de regresso ao futebol brasileiro no banco do Palmeiras. É uma equipa com bons jogadores mas ainda em busca de uma identidade própria. Scolari chegou com a época em andamento e ainda se nota alguma confusão de conceitos no jogo da equipa. Neste processo, é curioso ver como Scolari transporta agora para o Brasil muitos conceitos mais europeus de jogo que adquiriu.

Desde logo na estrutura táctica. Vejo o jogo com o Corinthians, e monta a equipa num 4x2x3x1 tipicamente europeu. Edinho e Pierre são o duplo-pivot, a dupla de volantes brasileira. Depois Márcio Araújo, transportador clássico, cai na direita e Lincoln pega no jogo a 10, ficando Everton que é avançado mais central, descaído à esquerda, com Kleber solto na frente, estilo falso nº9 móvel. Entre os laterais, um sobe muito (Armero, na esquerda), o outro fica mais (Vitor). A equipa fica algo presa e é sintomático que a frase mais gritada por Scolari é na direcção de um dos volantes, Edinho: “sai mais para o jogo, Edinho!”, grita Felipão. Noutras pede a Everton que faça diagonais para apoiar Kleber. São apenas dois movimentos, mas em ambos se nota os sinais da especialização táctica europeia de Scolari que, neste seu regresso ao Brasil, pode confundir muitos adversários. Veremos a evolução do seu Palmeiras (para já afundado no 11ºlugar).

A terra de Conca

O futebol do “Ganso”Os baixinhos estão na moda no futebol mundial, desmistificaram conceitos da força atlética do peso e da altura, e consagraram a força muscular da técnica com a bola rente à relva. A sua linguagem é o passe. No actual Brasileirão, há um jogador que personifica tudo isso: Conca, (1,67m. e 58kg.) médio argentino do Fluminense, o actual líder. Está no Flu há quatro épocas. No actual onze de Muricy Ramalho ele é o maestro de um 3x5x2 que resgatou, no ataque, um dos centro-avantes mais sábios do futebol brasileiro: Washington. Ele praticamente nem joga.

Com 35 anos, apenas fica entre os defesas, à espera de que a bola apareça. E quando aparece, só existe a baliza. A seu lado, Emerson, outro velho caminhante, de 32 anos, de regresso dos Emirados Árabes (antes andara por Japão e Qatar). Com o apoio (leia-se passes de morte) de Conca, 27 anos, a força atacante deste Fluminense pode, muitas vezes, nem ser a mais móvel, mas é, claramente, a mais sábia a ocupar espaços e quase «falar ao ouvido» das balizas.