O FUTEBOL JÁ NÃO ACREDITA EM HERÓIS

27 de Julho de 2014

Terá sido das exibições de organização defensiva mais cirúrgicas deste Mundial. Frene à Argentina, o Irão de Queiroz montou a sua “tenda de futebol” à frente da área, cobriu todos os espaços e nunca perdeu de vista as saídas para o contra-ataque, o que ficou desde logo evidente na opção inicial de tirar o ala-direito de avanço-recuo Heydary para meter o mais talentoso e rebelde jogador iraniano, Masoud. Manteve Hajsafi subido, à frente dos dois trincos “comedores de bola e relva” Teymorian-Neukonam e, claro, soltou Dejagah e o nº9 Reza nos confins da Patagónia (entenda-se a baliza de Romero).

O objectivo era claro. Fechar bem, sobretudo aumentando a zona de pressão no corredor central para evitar as triangulações criativas argentinas, e, depois, respirar/sair pelas faixas. Um pano infalível até Messi inventar um “golaço” ao minuto 91e mostrar o futebol atual, na hora da decisão final, já não acredita em “heróis coletivos”.

Por falar em heróis coletivos, uma palavra para a interessante seleção da Nigéria. Não quer fazer mais do que sabe que as suas capacidades a autorizam a fazer e com isso, defende-se das suas limitações e tem um futebol muito consistente, com a dupla Mikel-Onazi a chefiar o meio-campo e avançados perigosos, sem malabarismos no um-para-um, mas práticos na luta, passe e remate, como Musa, Emenike e o “chefe de tribo” Odemwingie.

Difere do Gana, no trilho da “África negra”, porque não se parte ente meio-campo e ataque. As diferenças de estilo nunca prescindem, porém, da bola, só que o Gana tem um maior talento individual que abana o jogo. Asamoah Gyan é um ponta-de-lança que precisa de profundidade (espaço nas costas dos defesas) para aparecer em corrida, mas a André Ayew bastam curtos metros do terreno.

Está, desde o berço, filho do grande Abedi Pélé, habituado a jogar em espaços curtos. Acredito que já dominava a chupeta com o peito do pé e a cabeava a seguir, colocada, como no belo golo que marcou a Neuer. Gosto de pensar que se nasce futebolista já na barriga da mãe. É impossível, eu sei, mas não me importo. Gosto de “amores impossíveis”.

O PROBLEMA INGLÊS

O FUTEBOL JÁ NÃO ACREDITA EM HERÓISTenhamos respeito pelas seleções que vão partir e já fazem as malas. Deixam as esperanças e em algumas mensagens de bom futebol. A Inglaterra voltou a escrever mais uma página do seu “manual de sofrimento mundialista” mas, desta vez, não cai agarrada aos arquétipos do futebol rude britânico. Cai agarrada a um novo aroma de jogo que teve fintas (Sterling), mobilidade com nº9 (Sturridge) garra com classe (Rooney) força elástica (Welbeck) e, entre outros traços, boas promessas (Barkley). Jogou com velocidade, nunca especulou com o jogo, procurou sempre a baliza pelos caminhos mais diretos mas sem prescindir da criatividade. Acabou traída por erros defensivos (o ponto franco da equipa em momentos-chave do jogo).

O futebol inglês tem muito por onde crescer Duvido que seja com Hodgson, mas a escolha para o lugar também não é fácil.

Ou seja, continuo a pensar que o grande problema do futebol inglês não é (nunca foi) de jogadores, é de treinadores. Não tem escola de treinadores e, pior, está convencida que sabe mais do que os outros. Sai pela porta do bom futebol pelas botas dos jogadores.