O IMPREVISTO É “PREVISÍVEL”. O JOGO NUMA FOLHA DE “EXCEL”

22 de Agosto de 2014

Viver o jogo, aqueles 90 minutos, são como uma “metralhadora” na cabeça dum treinador. A táctica é, por definição, uma coisa programada. Não é possível, porém, a “informatização” do futebol, muito menos do jogo. Tudo o que seja programado depende depois dum processo de ação (o jogo) em que corre sempre o risco de perder o sentido. Porque pode acontecer sempre algo inesperado. E, em geral, acontece mesmo. O fundamental é ter estratégias para responder a essas alterações e continuar no caminho certo da busca da eficácia. No futebol, pensam logo que a eficácia é o resultado. Pura ilusão. Eficácia é controlares todo o processo para chegares a esse resultado. Porque este tanto ilude como fala verdade.

Quando William Carvalho foi expulso em Coimbra com quase meia-hora para jogar, tudo, num ápice, mudava no planeamento verde.

Olho neste primeiro jogo para Marco Silva e não vejo, em rigor humano, outro treinador. Mas vejo-o diferente. A tensão no olhar é outra. Os pequenos gestos. A entrada no jogo descomprimiu. Ver aquela bola a voar em parábola no cruzamento do Jefferson é um hino ao futebol. Depois os grandes gestos. William vê o segundo amarelo e o programador táctico da equipa entra em curto-circuito. O tempo que passa até decidir que substituição fazer. Quando mexe foge do local onde o jogo estava a colocar as perguntas mais difíceis.

Uma equipa pode ficar a jogar em inferioridade numérica, mas não pode ficar em inferioridade numérica a defender. E atenção que não falo em defesas puros. Falo no processo defensivo no global sobretudo, neste caso, no meio-campo, de onde caira a âncora do sistema e, principalmente, da ideia de jogo. Rossel foi para o seu lugar mas não entrou outro médio. Saiu André Martins (Paulo Oliveira adaptou-se a lateral) e continuaram três avançados abertos na frente.

Entendo a ideia de poder ganhar agora as costas da defesa da Académica que subia dando profundidade as setas do Sporting. O jogo já não estava, porém, nesse patamar programático. Numa jogada podia ir lá ter. No jogo, ser coletivo global, já não. É impossível controlar um jogo sem controlar um meio-campo e nunca poderá ser o resultado por si só a dar ou tirar razão a uma ideia de jogo.

Com menos um jogador na realidade defensiva, a equipa desequilibrou-se. Acabou por sofrer o empate quando a Académica reconstruída de Paulo Sérgio já fazia dos últimos 30 metros a sua sala de estar táctica. Este Sporting não é novo na base. Mas foi, arrisco dizer, diferente na reação ao jogo em relação ao que teria sido a época passada.

Os últimos dias do mundo verde trazem de regresso de Nani. O jogador precisa do clube. A equipa precisa menos dele mas ficará, claro, melhor com ele. Deve-se sempre voltar aos locais onde se foi feliz. Desculpem contrariar a frase feita. Aos infelizes é que não. O erro é imaginar que as coisas se podem reproduzir, ser iguais ao que foram no tal “lugar feliz”. No futebol e na vida. Nani terá de ser diferente mantendo-se igual. Uma frase enigmática para terminar um texto é o ideal.

DESTAQUE:
Tudo o que seja programado mas dependa depois de um processo de ação corre sempre muitos riscos de perder o sentido. Eis o futebol!