O “inferno” (não) são os outros

21 de Abril de 2015

O “inferno” não são os outros

Ver uma equipa a crescer no decorrer da época, após um inicio apocalíptico, nem sempre traduz uma evolução. Por vezes, tratou-se, apenas, duma espécie de “simplificação de processos”. O Manchester United é um desses melhores exemplos.

A complexidade táctica que Van Gaal meteu na equipa e os jogadores (com sistemas de defesas a “3” e permanentes mudanças de posicionamentos) confundiu a transmissão/solidificação duma ideia de jogo, algo indispensável como prioridade num treinador que chega a um novo clube.

Ver a equipa hoje é ver os quase mesmos jogadores numa moldura táctica e princípios de jogo mais simples e eficazes.

Partindo no papel de um 4x2x3x1, os elementos-chave para a “nova ordem de jogo” são Fellaini e Herrera.

Ander Herrera é o organizador-criativo ofensivo no centro da segunda linha do meio-campo. Marca, em posse, o ritmo certo dos últimos 30 metros, quer dando tempo às trocas posicionais na frente, quer descaindo na meia-direita, permitindo as diagonais sem bola de Mata. Outras vezes, espera pelo momento certo e mete a bola na esquerda, onde Ashley Young combina com Blind.

Saindo de trás, Fellaini busca sempre um espaço adiantado na meia-esquerda, em cima dos defesas adversários, recebendo no jogo aéreo as bolas enviadas em profundidade, metendo-as de cabeça no centro da área. É mais fácil definir os seus movimentos do que a sua posição. Por isso, o sistema também pode ser um 4x3x3 se a meio campo com Fellaini-Herrera estiverem de perfil na saída.

Esta foi a fórmula que goleou o City de Pelegrini no derby de Manchester.

O caso-Fellaini é exemplar para os debates tácticos. A exploração do futebol dum jogador sendo definido pelos movimentos, após durante muito tempo ter-se debatido qual a sua melhor posição mas sem nunca descobrir o melhor encaixe para ele no onze.

A queda do City está muito relacionada com essa indefinição, mais do que o sistema em que joga. A equipa não define como quer jogar no corredor central e acabou por ficar refém de Yayá Touré. Tudo o resto fica diluído.

É a “ditadura box to box” de Touré que amordaça o melhor jogo de Fernadinho, num plano secundário na construção desde trás, em nome da... condução de jogo de trás para a frente.

O jogo torna-se essencialmente “vertical”, perdendo a circulação que procura o melhor lado para a bola entrar, algo que a visão e passe de Fernandinho daria. À frente deles, vagueando em busca do melhor local para ter a bola, Silva por vezes parece ter mais de evitar chocar com os seus colegas de equipa do que com os adversários.

Os treinadores montam uma equipa que, no inicio, só existe na sua cabeça, mas depois, em campo, os jogadores (seu talento/características) precisam de condições para levar a ideia mais além.

INSTRUÇÕES MAIS CONCRETAS

Um dos factores que mais perturba ver numa equipa, é quando se detecta que os seus defesas-centrais aparecem nervosos, incertos nas marcações zonais e idas às dobras, ficando depois irritados. A sensação é então que toda a equipa fica nervosa e irritada. As falhas atrás tem efeito deflagrado pelo resto do onze.

No atual City, a dupla Kompany-De Michelis é hoje um alçapão onde, a qualquer momento cai toda a equipa. É perturbante ver como baixaram de rendimento em termos de leitura de jogo. O caso de Kompany, que pela sua técnica chegou a ser médio (na Bélgica e na Alemanha) é o mais intrigante. Quase todos os seus erros são de opções e posicionamento.

Nestes casos de crise de jogo (e confiança) os jogadores (sejam defesas ou médios) necessitam do conforto de instruções mais concretas (o que fazer e limitação de espaço) e a equipa dum sistema mais equilibrado (menos de trocas posicionais) para que nenhum jogador se sinta confundido ou desamparado no jogo.