O jogo e os “laços”

23 de Junho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (14)

Cada equipa monta uma estratégia, mais ou menos sedutora, para tentar ganhar o jogo. O sucesso é uma incógnita, mas com ela decide-se logo, como, a correr mal, se vai...perder: dando uma mensagem de bom futebol ou agarrada a uma estratégia de receio.

Modric despediu-se do Euro depois de 90 minutos em que disse, a cada toque, passo e passe, como se deve pisar um relvado e tratar uma bola. Com sabedoria táctica (estar no local certo para sair com ela) e caricia técnica (parece acarinhar a bola). Não se trata de um romântico elogio à estética da derrota. Trata-se de perceber de como escolher viver em campo é o primeiro passo da construção da personalidade de uma equipa.

A Croácia travou o jogo da Espanha com uma ideia simples: se não posso ter mais posse de bola, posso ter mais jogadores onde o adversário irá ter essa maior posse (e surgiu em 4x2x3x1, versão 4x5x1 sem bola). Depois, era tentar transitar rápido para o contra-ataque. Esteve perto da vitória numa pintura em trivela feita por Modric que Rakitic não soube completar.

Ao mesmo tempo, Balotelli saiu das profundezas da sua existência exótica para fazer um grande golo. A mordaça com a mão que Bonucci lhe fez a seguir impedindo-o de vociferar com o treinador, mostra como o tráfico de emoções que este tipo de jogadores carrega no jogo pode ser, ao mesmo tempo, o seu céu e inferno. A mensagem do futebol italiano desenhou desta vez um 4x1x3x2 em que o médio-centro mais adiantado era Tiago Motta, um jogador que é, por definição, um picador de gelo táctico.

No onze de Prandelli, o médio mais criativo é o que joga mais recuado: Pirlo. Ganha, assim, no lugar do pivot um organizador e não um simples gestor de equilíbrios, mas no meio disto trava a evolução de outro jogador que, bem moldado tacticamente, podia ser um novo Tardelli: Marchisio. O livro de instruções tácticas com que entra em campo é, porém, demasiado grande e demora muito a ler.

Cada craque, diferentes laços no jogo. Mas há uma diferença: enquanto Modric abre-lhe a porta, Balotelli não para de lhe dar pontapés até a deitar abaixo. No fim, o resultado confunde tudo.

A questão-Espanha

O jogo e os laçosA Espanha continua a ganhar mas presente-se que existe qualquer coisa que não está a funcionar no seu modelo de jogo teia-de-aranha. A mão de Del Bosque treme no momento em que pega no quadro táctico e procura preencher o lugar de nº9. Torres, ponta-de-lança clássico, ou Fabregas, um médio que pode aparecer por lá. Tenho dificuldade em perceber como nasceu esta dúvida. Existirá a tentação de adaptar o estilo-Braça, mas a Espanha já tinha ganho tudo sem essa clonagem.

Mas, mesmo com o nº9 esta Espanha demora, no jogo, a encontrar o espaço para o ultimo passe. Uma questão que toca outro debate: a coexistência a meio-campo da dupla Busquets-Xabi Alonso, ambos nº6 de origem, e que gostam de pegar jogo atrás, o que coloca, na maioria do tempo, o onze a jogar com duplo-pivot. Imaginava-se melhor, para o evoluir da construção da teia em posse, a presença de Fabregas para uma dessas posições (a 8).

Quando tanto bom futebol tem tão pouca finalização é natural questionar muita coisa. Da construção à definição, a Espanha versão 2012 necessita elos de ligação mais coerentes. Em suma: problemas no paraíso.