O jogo: Prosa e Verso

16 de Junho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (10)

Um grande jogador, em campo, deve pensar sempre que pode receber a bola a qualquer instante e preparar uma boa resposta para lhe dar. É a melhor forma de congeminar a velocidade de movimento. Um exemplo prático desta ideia, está no remate pós-recepção/rotação de Mario Gomez no primeiro golo à Holanda.

Mas o pensamento nem sempre pode ser assim tão moldado. No jogador e no colectivo. Vejo jogar a Itália e sinto que criticar a sua forma de jogar (ou reagir ao jogo) é mais do que criticar uma mera estratégia de jogo. É quase como criticar a sua genética futebolística. Depois de uma primeira parte intensa a ganhar o meio-campo, chegaram ao 1-0 (vantagem que é quase uma goleada na cabeça dos italianos). Nessas alturas, parece que tem um íman nas costas que os faz recuar (sobretudo os médios), puxados por um ADN defensivista de tal forma enraizado na sua cultura táctica que é mais forte do que diz o próprio jogo que estão a disputar.

A Croácia de Bilic soube mexer (puxou Rakitic para o meio, soltou Modric e deu as faixas aos dois melhores laterais táctico-ofensivos do Euro, Srna-Strinic). Mais do que só tentar perseguir e caçar a bola, passou a jogar em função das zonas de maior perigo onde podia meter essa mesma bola. E chegou ao empate. Tudo táctico-geneticamente natural.

O jogo precedido de chuva e trovoada parecia criar o território perfeito para esta Ucrânia que imagino a jogar bem com o equipamento coberto de lama, tal o estado de alma com que entra, melhor pegar no jogo frente à França da técnica e do passe curto. O segredo de pensar bem o jogo voltou, porém, a fazer a diferença. Porque mais do que aproveitar espaços vazios, esta França cria espaços vazios. A velocidade de Ribery, a mobilidade de Nasri e as deambulações de Ménez, operários da técnica ente-linhas, onde aparece Benzema, o ponta-de-lamça que faz passes de morte para médios ou segundos-avançados que aparecem desde trás.

É este pensamento de jogo que falta à atual Holanda. Affellay, Van Persie, Robben (que corre demais com a bola), todos esperam por a bola nos espaços. Sneijder tenta, a cada passo ou passe que dá, mudar este conceito, mas não existe diálogo com o resto da equipa a esse nível. O futebol é uma questão de boas respostas tácticas e técnicas.

A estética do jogo: relva e bancada

O jogo Prosa e VersoFoi a primeira seleção a cair do Euro mas duvido que outra tenha maior ovação do seu público. Ninguém vive o futebol de forma mais pura e divertida que os irlandeses. 0-4, um onze rudimentar (Keane-McGeady na sombra de Andrews-Whelan) e a multidãolouca a entoar o hino irlandês. Só custa ver Trapattoni obriga-los a recuar tanto (contra a Espanha a entrada da área parecia uma plantação verde, uma horta futebolística) quando eles queriam tanto jogar o seu kick and rush tradicional. Em suma: queriam perder de forma diferente.

As bancadas deste Euro têm dado grandes imagens. E já têm até a sua Larissa. Do Paraguai à Polónia, a estética deste Euro tem claro upgrade sedutor. Natalia Siwiec, modelo polaca que ilumina o Estádio quando joga a sua seleção. No relvado, a iluminação tem outro nome: Blaszczykowski, o Kuba. Largura e profundidade sobre a direita, num onze que sabe alternar entre 4x2x3x1 e 4x3x3. A diferença está em ter ou não o trinco Dudka. O ponto de união, em qualquer sistema, é a velocidade de desequilíbrio de Kuba. E, claro, a de Natalia, na bancada. Polónia: a táctica e a estética, hoje em Wroclaw.