O jogo tem duas balizas de Rui Patrício a Jackson

05 de Outubro de 2014

Um grande guarda-redes e um grande ponta-de-lança. Pode o melhor futebol de duas equipas concentrar-se, no jogo, em dois jogadores de polos tão distintos? As defesas de Rui Patrício e os golos de Jackson. As últimas palavras para chegar ao golo ou para o evitar. Ambos devoraram os jogos de Sporting e FC Porto.

As duas equipas têm hoje uma necessidade de afirmação que, muitas vezes, parece não fazer sentido. Ambas têm mais futebol do que aquele já mostraram na maioria do tempo dos jogos. É, dirão, um natural processo de construção, que essa consistência com qualidade vai surgir, mas hoje muitos problemas que sentem nos jogos mais do que vindas do adversário, nascem dentro delas. Sente-se no campeonato, no plano interno. Os jogos da Champions colocam a questão numa dimensão superior.

Contra o Shakthar, Lopetegui entrou na terceira dimensão da rotatividade e colocou um defesa-central a médio-centro defensivo. Não falo aqui em pivot. Marcano tinha uma missão clara. Um trinco puro de equilíbrio numa posição onde, para além dessa dimensão tático-física de cobertura, o jogar azul e branco sempre teve um jogador com noção de inicio de construção. Mas, a verdade é que para a estratégia de Lopetegui, a opção resultou. A equipa, esse sector, e o jogador em causa (Marcano não perdeu quase nenhuma bola e resolveu problemas) nunca largaram o controlo do jogo nesse sentido. Óliver e Herrera baixavam para construir, libertavam-se depois, o que projetou o jogo pelas faixas.

A questão que se pode colocar é se uma opção destas faz sentido dentro do tal processo de construção da forma de jogar da equipa. Quando (e contra quem) o FC Porto vai voltar a jogar assim? Alguma vez foi esta a forma do FC Porto desenhar as características no jogo do seu pivot que teve sempre dotes construtivos? Na estratégia especifica frente a um trio móvel inventor (Alex Teixeira-Douglas Costa-Taison) a âncora-Marcano foi decisiva. Foi, porém, o pensamento para um jogo apenas. O pensamento para a equipa nessa posição taticamente chave continua em aberto.

A profundidade de jogo interior só surgiria, noutra visão do jogo, quando, a 25 minutos do fim, os passes de Quintero passaram a iluminar o jogo da equipa e na frente de ataque surgiu um verdadeiro ponta-de-lança, aquele tipo de n.º 9 que tanto joga de costas em apoio com a equipa como faz o movimento mais sublime do caçador de golos puro: surgir em antecipação a frente do defesa para finalizar. O seu golo ao minuto 93 tem instinto, técnica e uma vida inteira de n.º 9 concentrada dentro dele.

O Sporting vive de rotinas com uma nova qualidade e ritmo competitivo a atacar: Nani. Perante o exército de Mourinho era difícil o meio-campo roubar a bola e escondê-la, mas soube sempre procurar as coberturas. A equipa encarou o jogo com instinto de sobrevivência. A resistência expressas nas grandes defesas de Rui Patrício, na forma como, feito montanha encarava avançados isolados, são o cofre-forte que guarda a capacidade da equipa se manter na discussão deste tipo de jogos.

O jogo tem duas balizas de Rui Patrício a JacksonMarco Silva manteve o seu onze-base. Não procurou inovações estratégicas, nem adaptar defesas a meio-campo. Jogou com o que tinha e não pediu o impossível. Perdeu naturalmente com os jogadores que fazem-lhe a base. O FC Porto criou a sua estratégica. Jogou de forma diferente no triângulo do meio-campo. Empatou naturalmente pelos (melhores) jogadores que meteu na fase decisiva.

Na construção da equipa o guarda-redes e o ponta-de-lança nunca serão a chave, mas, num jogo, cada qual pode ir para além dela e levá-la até locais(e resultados) que só eles conhecem. É o trilho de Rui Patricio e Jackson.