O “labirinto verde”

11 de Abril de 2008

Os estilos que identificavam cada futebol esfumaram-se. O futebol britânico sempre foi um paraíso de luta, bolas longas e jogo aberto. Tacticamente limitado, mas sempre de “peito aberto”. Conta-se que, nos anos 80, Billardo, treinador da Argentina, explicou aos jogadores como jogava a Escócia não através de vídeos, mas antes com um simples passeio por Glasgow: “Já sabem, se virem tipos altos, feios e sem dentes, são defesas centrais ou pontas de lança!”. Desta forma, explicava qual o estilo de jogo escocês e para que batalha os seus artistas se deviam preparar. Hoje é diferente.

Embora continuem a lutar muito, já especulam tacticamente e aprenderam a jogar para….defender e contra-atacar. Dois traços que criam confusão. Isto era o que se dizia de uma equipa italiana. Por isso, as ilusões criadas após o primeiro jogo do Sporting contra o Rangers.

Em condições históricas normais sobreviver em Glasgow com um 0-0 era para suspirar de alivio. Passara o mais difícil. Mas já não é assim. Porque o Rangers nem no seu inferno particular jogou aberto. Quis gerir.

Nesses princípios, o jogo foi o ideal para este Sporting que, assim, soltou as suas qualidades. Posse da bola a meio-campo, jogo apoiado, largura, mas tudo…sem baliza. Ideal para empatar. Em Alvalade, seria diferente. Para ganhar, já seria necessário soltar-se no que era menos forte. Criar espaços, jogar pelos flancos, desmontar a defesa escocesa, em vez de só controlar, dominar. Colocar uma baliza no fim das jogadas.

Contra um onze escocês de espírito “italiano”, o Sporting voltou a chocar com a “parede invisível” que surge nos flancos quando se aproxima da área e impede-o de desequilibrar os adversários. O Rangers aguentou, aguentou, e em dois contra-ataques “matou”o jogo.

O “labirinto verde”Resumir 180 minutos da eliminatória a uma bola no poste (“se aquela remate de Liedson tem entrado…”) é fugir à realidade que todo o “mundo sportinguista” tem de perceber. Porque as razões para 180 minutos nunca estão em curtos segundos de uma jogada isolada. Estão em sucessivas limitações que se evidenciam desde o início de época e têm aprisionado todo o jogo da equipa e condicionado a possibilidade de Paulo Bento ter outras estratégias para cada jogo. Isto é, o problema não é não ter sistema alternativo. O problema é jogar sempre da mesma maneira dentro do mesmo sistema. É verdade que Liedson se sente melhor em 4x4x2, mas é redutor tornar um dogma que ele seja incompatível com outro sistema.

Todos os grandes avançados o fazem. Basta rever o passado do Sporting.

Jordão, Manuel Fernandes ou até Jardel, todos eles jogavam (moviam-se) em dois sistemas. 4x4x2 ou 4x3x3. O segredo estava em criar condições para que o fizessem. Manuel Fernandes, por exemplo, foi uma fábrica de golos com Jordão em 4x4x2, e, depois, também com Futre, extremo (ou até nos finais dos anos 70, com Marinho) embora fosse com dois avançados que rendia mais. Jardel, à medida do 4x3x3 com extremos (letal com os centros de Drulovic no FC Porto) jogou noutra estrutura em Alvalade, formando com João Pinto, exímio no passe, uma dupla fantástica. Liedson é, claro, diferente de Manuel Fernandes ou Jardel, mas, pela sua intuição e rapidez, tem de adivinhar o jogo dos companheiros noutros princípios e sistemas. Sem resolver esta equação onde Liedson, ora liberta a equipa, quando faz golos que “resolvem”, ora aprisiona-a, quando a impede de ter outra forma de atacar, o Sporting nunca encontrará a saída do labirinto desportivo e táctico em que caiu.