O médio brasileiro

27 de Novembro de 2008

O médio brasileiro

É comum, antes dos jogos, os treinadores brasileiros dizerem que estão a pensar jogar em 3x6x1. Não é, longe disso, um discurso táctico passível de surgir no futebol europeu, mas que encaixa na perfeição na forma de jogar das grandes equipas brasileiras, onde como elementos mais fixos em termos de definição de linhas apenas existem os três defesas-centrais, os clássicos zagueiros, e um ponta-de-lança mais fixo, o clássico centro-avante. No resto, entre eles, jogadores que ocupam o campo todo, desde os laterais que fazem o flanco nos dois sentidos, os volantes que defendem e saem para o jogo, e o médio mais criativo que é quase um segundo avançado com bola. Na dinâmica do jogo, estes jogadores são, nas transições defesa-taque-defesa, seis médios. Os cinco primeiros do actual Brasileirão (partindo do 3x5x2, tirando o Cruzeiro em 4x4x2) são a forma ideal para perceber esse perfil do médio brasileiro e como pode esse seu jogar fazer a passagem para o futebol europeu, seu diferentes ritmos e tácticas.

Em termos de aplicação ao caso português, Ibson é um bom ponto de partida para essa reflexão. No Flamengo, assume o jogo já numa segunda linha, deixando mais atrás o trinco-volante Toró, mas os movimentos que o fazem forte no futebol brasileiro não são reproduzíveis no futebol europeu. Uma das razões fundamentais reside no tal numero de médios (sejam laterais a subir ou avançados a recuar) que encontram por perto sempre que conduz a bola, o que lhe permite jogar em espaços mais curtos e fazer o passe quase sempre no pé, enquanto na Europa, com maior velocidade de desmarcações, é necessário maior noção de passe para o espaço. O médio brasileiro, como Ibson, entende sobretudo o jogo de pé para pé.

No actual cenário do Brasileirão, há excepções, aqueles que jogam mais no espaço e, com isso, poderiam fazer melhor a viagem europeia. São os casos de Hernanes (volante de transição) no São Paulo, Ramirez (volante-ala) no Cruzeiro, ou Sandro Silva (volante-defensivo) no Palmeiras. Todos sabem queimar metros com a bola e passar para o espaço, apesar dos hábitos de toque curto que o jogo lhes incute. O único momento onde a bola e o jogo ganha mais profundidade tem a ver com o passe diagonal que, na Europa, tem quase sempre um ala ou extremo para receber, enquanto que no Brasil é metida para um lateral a apanhar em velocidade.

A forma como a selecção brasileira joga no meio-campo explica bem este transfer América do Sul-Europa. O melhor exemplo é a metamorfose de Anderson, hoje capaz de ler o jogo todo, de uma área a outra, ocupando os espaços com ou sem bola. Está aqui o segredo para o médio brasileiro vingar na Europa: ocupação dos espaços. Só depois, vem a posse de bola.