O MEDO E O PODER TÊM “TIMINGS” PARA APARECER

29 de Julho de 2014

A Alemanha é daquelas equipas a quem reconhecemos enorme poder mas que raramente mostra ao adversário desde cedo o que ele mais teme. E ele ilude-se. Ou seja, os craques estão lá, mas a forma de mover-se/atacar, e até a velocidade imprimida, não é, no inicio, a maior nem a ideal para intimidar no jogo.

Não penso que seja só estratégico. A origem estará em não utilizar ou conciliar da melhor forma as grandes armas que tem. Viu-se com a Argélia. Sem jogo/profundidade pelas faixas e a difícil coexistência de dois craques mas demasiado parecidos a jogar e pensar o jogo quando colocados na mesma linha de ação (Gotze-Ozil). Se estivessem em flancos trocados, ou um mais recuado, poderiam funcionai (ligar-se), mas colocados descaídos sobre o centro e meia-esquerda, quase chocam quando querem a bola.

Ao intervalo um deles, naturalmente, saiu. Entrou um ala direito que flecte bem, Schurrle e Ozil ficou mais solto. O meio-campo Schweinstieiger-Kroos aumentou de intensidade, embora eu continue com a mesma certeza: nesta seleção, Lahm seria muito mais útil (e jogaria melhor com mais impacto no jogo) a lateral-direito.

Foi difícil, a Argélia ergueu um muro defensivo e nunca perdeu de vista o contra-ataque, mas a Alemanha defendeu sempre bem com o melhor “guarda-redes jogador” deste Mundial: Neuer. Notável a forma como guarda os 30 metros nas costas da defesa subida. Lê o jogo e saí à bola em antecipação quando ela entra nesse latifúndio de relva vazio e afasta-a com os pés ou a cabeça matando o perigo. Um fantástico libero disfarçado de guarda-redes.

Até que, de repente, surge mesmo o que faz mais tremer o adversário. Muller. Posição? No processo atacante, é a que quiser nos último 25/30 metros, desde nº9 falso (como lhe chamam) ou verdadeiro (como parece que é), até ala, ou inventor puro que pega na bola atrás e vira de pernas para o ar o adversário. No fundo ele é isso tudo, alternadamente, em cada jogada que entra.

Esta Alemanha pode não intimidar ao principio, mas é mais perigosa porque intimida....quando quer. Nem as tropas de Napoleão conseguiram isso.

A “FÉ” DO CONTRA-ATAQUE

O MEDO E O PODER TÊM TIMINGS PARA APARECERUma boa equipa soma vários fatores. A qualidade, por vezes, pode ser só uma expressão individual egoísta. Tem de existir a interligação do(s) talento(s), capacidade de execução técnica, ordem e comunhão emocional entre o onze. Este ultimo ponto é, por vezes, o mais difícil,. Quando é conseguido, até supera deficiências técnicas ou tácticas. Quando evidenciado, até anula as maiores qualidade técnicas ou tácticas.

Após esta reflexão e inevitável não pensar nas seleções da “África negra” neste Mundial. Conjuntos de superegos que reunidos arrebentaram com o tecto do balneário. A frustrante realidade de ver tantos grandes jogadores perdidos num atraso estrutural organizacional fizeram daquelas seleções quase “tendas beduínas de futebol”.

O contraste vindo do norte, foi dado pela Argélia. Estilo, táctica, técnica e comunhão. Fala-se muito da sua fé no jogo. Acredito, mas a minha analise é mais na “fé expressa tacticamente” num estratégia ordenada, com fé no... contra-ataque. Jogaram muito bem. Mas há “Deuses terrenos”, alemães, quase parecendo jogar de botas cardadas, mais fortes. Fica a mensagem da “Fé como estilo”.