O MEIO-CAMPO GANHA OU PERDE JOGOS

28 de Julho de 2014

Quando marcou ao Gana aos 30 segundos, os EUA recuaram e “entrincheiram-se” junto à sua baliza. Nunca os tinha visto jogar assim. Questionei se fora estratégica ou incapacidade para sair (até porque tinham perdido, entretanto, o seu nº9 possante que segura a bola, Altidore). Contra Portugal sucedeu o contrário, sofreram um golo o cedo e partir dai deixaram a caverna junto à baliza e passaram a pegar na bola e no jogo a meio-campo. O sistema mudou para um 4x2x3x1 mais maleável, com Bekerman “carraça” a trinco, e sobretudo duas linhas de meio-campo perfeitamente definidas, complementares e funcionais: Jones (box-to-box, com condução e remate, e Bradley, “guardador de bolas e posse”). Tudo aquilo que Portugal não tem, neste momento: meio-campo.

No fim da goleada com a Alemanha identifiquei esse sector como a “raiz do problema” do jogo da nossa seleção. Quando um meio-campo adversário dá um passo em frente, o nosso dá...dois passos atrás. Com os EUA foi igual.

Paulo Bento e Nani insinuaram que fora estratégico, para gerir jogo (e esforço) mas a verdade é que a táctica passa mais por saber gerir velocidades, locais de posse e, sobretudo, zonas de pressão.

Esta seleção tem um grande problema “sem bola”: não pressiona. Recua e quer organizar-se. Poucas recuperações faz e a diferença notou-se quando entrou William Carvalho e passou a meter o corpo e as chuteiras nos sítios certos para as recuperar, mas, no colectivo (pressão organizada) a equipa continua sem pressionar. E, assim o adversário, joga, pega na bola e mete-a rapidamente no local onde nos faz tremer mais: o lado esquerdo da nossa defesa, autoestrada para os EUA.

No fim, Ronaldo falou sem procurar buracos na relva: “somos uma seleção de nível média. Há outras melhores”. Ver o nosso craque falar assim, deveria ser o suficiente para devolver à realidade todos que gerem o futebol português e perceber que o problema é profundo. Só quando alguém, Ronaldo, chega inspirado de outra galáxia, é que nos faz levantar os pés do chão e viver por momentos as doces ilusões. Contra os EUA, foi a realidade pura.

A “POSSE LENTA”

Ser uma equipa de posse é uma coisa. Querer ser uma equipa de posse é outra. Penso nisso vendo a Rússia com a Bélgica. Durante quase todo o jogo, os russos pareciam controlar (ritmo e bola). A intenção de Capelo é fazer da sua Rússia uma equipa de posse. Em certos momentos e contra adversários mais aburguesados, convencidos da sua superioridade técnica quando recuperarem a bola, isso até acontece. Ou parece que acontece. Porque a principal consequência dessa aposta para o estilo russo (com Fayzulin-Glushakov ou Denisov no duplo-pivot e Shatov vagueando) é tornar a equipa muito lenta.

Ou seja, ao querer ser de posse a equipa tem o dano colateral tático de se tornar todo o seu futebol denunciado. Custa-lhe acelerar e verticalizar o passe (lateraliza demais) e dá tempo ao adversário para se organizar, fechar e acabar por recuperar após um mau passe russo.

Quando entra Dzagoev, o jogador mais criativo russo que na aculturação deste estilo quase passou a jogar em câmara-lenta, isso ainda se torna mais visível, quando antes até era rápido. Há estilos que confundem as equipas e quase a metem, involuntariamente, num “colete de forças”.