O MIUDO MALANDRO, DESCALÇO E DE CARA SUJA

29 de Julho de 2014

É dos momentos mais apaixonantes do futebol. A prova de um mero desporto em que ganha o mais alto, rápido, forte, etc, é um....jogo, em que ganha o mais inteligente, ou numa terminologia de rua, o mais “malandro”. Olho agora para a Costa Rica como esse miúdo “malandro” mais pequeno que chega para jogar no bairro contra esses rapazolas mais altos ou convencidos. Parece quase uma “luta de classes”.

Claro que a abordagem ao jogo de Jorge Luís Pinto não será tão romântica. A questão é mais dura: como pode bater a poderosa Holanda e chegar á Meia-Final?

Em geral a estratégia da “equipa pequena” contra a “grande” passa por defender mais atrás, atenção defensiva nas marcações e lançar o contra-ataque para o avançado mais rápido. Nunca foge muito disto. No fundo, a base desta Costa Rica, como das equipa mais “pequenas” com menos argumentos baterem-se com as “grandes” é sempre a mesma: estratégia e, sobretudo, organização. Os “milagres” têm, portanto, explicação táctico-técnica terrena.

O problema a resolver para esta Costa Rica é como encher melhor o seu meio-campo, onde, de origem, só moram dois médios puros (de resto é a defesa a “3” que passa a “5” com o recuo dos laterais, e os três avançados móveis-setas). Os médios puros são Celso Borges e Tejeda.

Tem, portanto, um excelente suporte defensivo, mas vai ter de baixar mais para não dar espaço nas costas (profundidade) aos velocistas laranjas, o que impede, por sistema, os laterais joguem mais subidos. A estratégia terá, em principio, de ser os avançados a recuar mais e, completarem o meio-campo. Travando a saída de bola holandesa, e, depois, preenchendo mais espaço à zona a meio-campo, com Ruiz a fechar na esquerda.

Pode parecer um contrassenso pensar numa estratégia para defender melhor e a quem peço maior esforço defensivo é aos... avançados. O futebol é assim. Para inverter as coisas só mesmo com a lógica do miúdo da rua que chega entre os maiores e ricos, com t-shirts surrada, cara suja, limpa o ranho do nariz e, com as botas furadas, começa a jogar melhor que os outros. A ser, afinal mais malandro.

AS “VIAGENS” DE KUYT

O MIUDO MALANDRO DESCALÇO E DE CARA SUJAPrefiro os especialistas aos polivalentes, mas, de repente, deparo-me neste Mundial com as “viagens no relvado” de Kuyt e é impossível não alucinar. Da primeira vez que vi a ficha do jogo, imaginei que Van Gaal voltaria ao 4x3x3. Mas não. Começa o jogo, e eis Kuyt a lateral-esquerdo dum 3x4x1x2. Com o México, passou de lateral-esquerdo para lateral-direito, então em defesa a “4”, e numa fase de ataque desesperada, para avançado-centro, regressando depois atrás.

Uma viagem posicional feita sem um esgar de incómodo ou hesitação. Era como se tivesse nascido para aquilo. Parecia ser quase ser um jogador com controlo remoto à distância nas mãos do treinador.
Kuyt provou o que é ser um multifunções. Antes do adversário e a si próprio (seu ego) vê a sua equipa. Claro que ele quer é jogar, mas longe dos lugares goleadores fica, na raiz, “meio-jogador”. Na cabeça e atitude foi, porém, o mais completo em campo. Porque, no fundo, conhece mais do que todos os outros os “fundamentos do jogo”.

É isto que faz um grande “craque táctico”. Jogadores para ao principio estranhar e depois admirar para o resto da vida.