O “ovo de Colombo” espanhol

27 de Julho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (21)

Confesso que esta Espanha é a seleção que mais me confunde desde o inicio do Euro. A questão de jogar com ou sem ponta-de-lança abriu essas duvidas. A primeira sensação, após o jogo com a Itália (onde jogou sem 9 clássico, surgindo Fabregas nesse espaço) foi que ele era indispensável. Não para jogar melhor, mas para acabar melhor as jogadas de ataque. O jogo contra Irlanda (com Torres de inicio e a marcar) parecia confirmar a ideia. Seguiram-se Croácia (com nº9 de inicio) e França (sem nº9) e fico mais confuso. Porque no primeiro caso a equipa ficou muito previsível a acabar as jogadas, depois, no segundo, jogou melhor.

No fundo, afinando os princípios (movimentos sincronizados de passe e desmarcação de Silva, Iniesta e Fabregas) para jogar sem 9 clássico, esta opção torna-se mais perigosa e imprevisível para os adversários. Não fiquei, no entanto, totalmente convencido, pois, afinal, tinham sido campeões da Europa e do Mundo a jogar com 9 clássico.

Até conclui que toda esta confusão ao comparar essas diferentes equipas era só um nome: Villa. A sua ausência é o factor que torna esta Espanha diferente (e, por isso, com necessidade de fazer coisas diferentes). Porque com ele (no 4x3x3 escondido numa faixa e arrancando em diagonal para a área) o onze tinha sempre um homem de área quando a bola lá entrava. Basta recordar como nos fez o golo no Mundial. Sem ele, Del Bosque buscou outros quadros tácticos. Inspirado no modelo-Barça, mas sobretudo na mobilidade inteligente dos seus jogadores com e sem bola (passe-desmarcação)

Não é que tenha descoberto o ovo de colombo táctico espanhol, mas equilibrou a equipa quando, ao principio, a sua opção parecia estar a ter o efeito contrário. Depois, durante o jogo, tem a alternativa de (para garantir mais largura e profundidade) meter um extremo (Navas ou Pedro). Ou seja, entra um homem para um flanco e automaticamente abre-se mais espaço no...meio (porque as marcações da equipa adversária são forçadas a alargarem-se).

Em suma: um jogador nunca faz uma equipa mas pode desenhá-la (e condicionar todo o seu processo ofensivo) com um simples movimento.

Vender estilo

O ovo de Colombo espanholHá jogadores a quem custa mais vender o seu talento. Seja pelo estilo, mais lento ou gordito, porque são tímidos ou não fintam. Miguel Veloso é um pouco esse caso. Ninguém questiona que sabe tratar a bola. Questionam sempre a sua intensidade de jogo. Nunca vi isso como um problema de fundo (pois domina os fundamentos táctico-técnicos de jogo) mas como a intensidade não é um conceito abstrato (traduz-se no campo em rapidez sobre a bola, agressividade nos espaços, velocidade de execução...) disse, antes do inicio do Euro, que não podia continuar a jogar a...diesel.

Embora, teoricamente, a posição 6 seja a que um jogador menos precisa de ser rápido (e o jogador lento tem boa qualidade de vida) o combustível futebolístico de Veloso no 4x3x3 de Portugal, aumentou, claramente, de intensidade.

É ponto de equilíbrio que garante circulação de bola por trás quando o meio-campo sobe (pois espera o passe atrasado para virar jogo). É ponto de equilíbrio a defender, pois com o seu sentido posicional é a bússola que orienta o posicionamento de Moutinho e Meireles). Veloso, talento discreto descodificado.