O “peixe” e a táctica

04 de Junho de 2011

O “peixe” e a táctica

É o regresso dos monstros. Santos e Peñarol, velhos caminhantes das canchas sul-americanas, chegam à Final da Copa Libertadores vindos de locais (projectos de jogo) e exercícios de sofrimento (o drama das meias-finais) muito diferentes. Lógico o apuramento do Santos. Épico o do Peñarol.

São, porém, duas equipas tacticamente evoluídas, mais do que é normal ver nos relvados sul-americanos, apesar da enorme evolução registada pelas suas diferentes escolas nesse campo. Onde o progresso se nota mais é no Brasil. Nesse contexto, um treinador assume a vanguarda desse upgrade de pensamento táctico: Muricy Ramalho. Seria interessante analisar seu percurso nos últimos anos. É cada vez mais um treinador preparado para dar o salto para a Europa. Digo isto porque, para além dos títulos (4 Brasileirões nos últimos 5) nota-se uma grande evolução na versatilidade a pensar estrategicamente o jogo.

Depois do início tradicionalmente sul-americano, com laterais-extremos e os três zagueiros, revela agora maior entendimento específico de cada jogo. O seu actual Santos é um bom exemplo. Poucas semanas no banco e a equipa já cresceu tacticamente. Um sinal desse lado táctico mais europeu surgiu na segunda mão da meia-final no Chile, onde mantendo o seu 4x4x2 habitual, redesenhou o meio-campo e sem Ganso, abdicou do médio criativo mais solto e fez uma linha de 4 mais posicional no controlo do jogo e seus espaços em largura: Adriano, volante estilo pivot/trinco, Danilo e Arouca interiores de transição e Elano, flanqueador que abre em posse e fecha sem bola, a descair na direita, enquanto na esquerda sobe o lateral Alex Sandro. Na outra variante, entra Ganso, e o 4x4x2 fica mais clássico, com dois volantes complementares (Arouca operário, Danilo mais vertical) e dois meias puros (Elano solto na ala direita e Ganso em diagonais esquerda-centro).

No passado, a forma como no Fluminense conseguira conciliar dois criativos como Deco e Conca, sem perder rigor defensivo, nem arte atacante, também mostrou esse seu saber táctico mais evoluído no jogar brasileiro.

O Peñarol deu uma lição de futebol defensivo casa vulcânica do Vélez. No papel um 4x4x2, na relva um 4x5x1, deixando Olivera na frente apoiado por Martinuccio e os alas (Mier-Corujo) bem recuados a fechar, de perfil com os pivots-volantes (Luis Aguiar jogou quase em cima do trinco Freitas) e uma defesa a 4 que não mexe um cabelo nas disciplina das marcações. Aguentou até aos limites da resistência e quando o ponta-de-lança adversário (Silva) escorrega na hora de marcar o penálti decisivo e chuta por cima da barra, podes dizer que maior do que a táctica só Deus e a… vontade da bola.

Equipas do Paraguai

O “peixe” e a tácticaDepois de furarem pelos monstros brasileiros e argentinos, as duas equipas paraguaias caíram à porta da Final (Libertad, nos quartos e Cerro Porteño, nas meias). Na retina fica a qualidade táctica e técnica apresentada pelos dois onzes. Numa primeira análise, parecem equipas eminentemente defensivas, daquelas que se fecham e esperam o contrata-ataque, mas não é bem assim. Têm, sem dúvida, o primado da organização defensiva. Isto é, nunca desmontam a defesa, os laterais, por exemplo, nunca sobem sem se ter preparado a compensação (recuo) de um médio, para manter sempre 7 jogadores atrás da linha da bola.

Ambos os técnicos, porém, Gregorio Perez do Libertad e Astrada do Cerro, respectivamente, equilibraram o lado criativo dessa fórmula com alas muito fortes, quer na profundidade como na capacidade de jogar por dentro. Foram os casos de Ivan Torres no Cerro e Gamarra no Libertad. O início da transição defesa-ataque é quase sempre feito pelo centro, com dois volantes com perfeito posicional, mas sem estarem pregados à relva (destaque Villarreal no Cerro, Caceres no Libertad). À sua frente, na face criativa, estilo segundo avançado, dois nomes a fixar: Rojas, repentista do Libertad e Fabbro, mais culto a temporizar e depois, elegante, a arrancar com leveza para o passe, no Cerro. Nomes para seguir nas canchas guaranis.

O estilo do Peñarol

O “peixe” e a tácticaConsciente do seu menor nível técnico, o Peñarol de Diego Aguirre apela à mais profunda raiz da táctica emocional charrua. Não é, no entanto, uma equipa excessivamente agressiva no sentido faltoso do termo. Longe disso. Procura jogar a bola mas com agressividade… táctica, expressa na ocupação dos espaços (sobretudo defensivos) em antecipação. A importância dos alas a defender é base para o equilíbrio da equipa em largura sem bola. Mier, à esquerda, e Corujo, à direita, fazem-no na perfeição. Quando joga Urreta, a procurar verticalizações de extremo típico fica mais difícil manter esse rigor atrás da linha da bola. Quando a recuperam, sabem atacar sem perder de vista o que lhes está a acontecer nas costas. Deixa um trinco fixo (Freitas) e solta Luis Aguiar para defender e atacar.

Quando quer segurar a bola, temporizar ou, até, esperar uma falta e parar o jogo, surge o segundo avançado Martinuccio a pegar mais atrás.

E o fôlego táctico regressa. Do Uruguai para a Libertadores, este Peñarol é um desafio ao impossível.