O pentágono de Cajuda

12 de Novembro de 2007

Quando lá chegou encontrou-o nas catacumbas da II Liga. Assustado, o Vitória nem conseguia olhar-se ao espelho. Demorou a devolve-lo à vida, mas, quando o conseguiu, nunca mais parou. É a mais recente cruzada do profeta Cajuda nos caminhos do futebol português. Sacudida a poeira, o seu Guimarães ressurge na I Liga com o nariz no ar. Os seus adeptos fazem de cada jogo uma afirmação de identidade. Abraçam a equipa com tanta força que muitas vezes acabam por a sufocar. Poucos treinadores aguentaram essa pressão. Mas, para Cajuda, peixe de águas profundas a lidar com o comportamento humano, este era o combate ideal. Poucos como ele lidam com os D.Quixotes e Sanchos Panças do nosso futebol com tanta astúcia. Acredito mesmo que se ri dele em surdina atrás das portas como aquele velho desenho animado dos malucos das máquinas voadoras. Costuma dizer que “quem sabe só de táctica, nada percebe de futebol”. Acho que não é bem isto que quer dizer. Nos gestos, palavras e atitudes, a lição que foi deixando é outra. Por isso, devia antes dizer: “Quem sabe só de futebol, nem de futebol sabe!” Sabe, também, que quem não sabe nada de táctica, pouco sabe de futebol. Por isso, o seu Vitória tem hoje personalidade forte e identidade táctica. E faz bem as transições.

É na mobilidade do meio-campo, recuando e avançando, que está a base do seu jogo. Por isso, mudou a estrutura em Alvalade. Para que os jogadores se movem-se a partir de outros pontos de referência. Em vez do habitual 4x2x3x1, com duplo-pivot defensivo (Flávio Meireles mais fixo na recuperação e João Alves mais solto apoiar o ataque) e três médios na segunda linha (um com dinâmica de extremo, Alan, outro mais móvel, entre o centro e a faixa, Fajardo, e outro, na outra ala, mais atento a defender, fechando sem bola, Desmarets) mudou o desenho de «2x1» para «1x2». Ou seja, Meireles ficou como trinco, mas para ganhar os espaços interiores em zonas mais subidas, adiantou João Alves e Desmarets (que flectiu no terreno) de perfil, à frente de Meireles.

O pentágono de CajudaNas alas, a velocidade de Alan e Carlitos caia em cima dos laterais do Sporting, travando as habituais iniciativas destes. No ataque, em vez da presença mais fixa de Miljan, apostou na mobilidade de Ghilas. Foi Cajuda no plano táctico, portanto. Mesmo após ver Meireles ser atropelado por Vukcevic preferiu não ir por ai na análise ao jogo. Em vez do labirinto da arbitragem, jogou com os atalhos do comportamento humano. Por isso, joga, de facto, como disse na passada semana, num pentágono com dois quadrados. Só que o faz fora do campo. E o futebol, antes da táctica, é isto. Saber da vida. Cajuda sabe mover-se nos dois campos. E, no seu íntimo, também sabe porque nunca chegou a um grande.