O «piloto automático»

12 de Dezembro de 2007

Pensar no sistema táctico é mais do que pensar na estrutura que dispõe os jogadores em campo. Mesmo ambas em 4x4x2, duas equipas podem jogar de forma muito diferente. Depende das movimentações que, em situações idênticas, os jogadores realizam. Os sistemas não são, portanto, universais. Não têm vida própria. A estrutura do Benfica está solidificada no 4x2x3x1. É um ponto de partida. Falta agora, detectar, os seus princípios (hábitos) de jogo. Vendo os jogos, é raro, porém, detectar-se movimentos que se repitam de forma pensada, isto é, algo que ultrapasse a dinâmica lógica do sistema, como o lateral subir, o ala flectir, cruzamento e depois depende da bola cair ao primeiro ou segundo poste e onde está o ponta-de-lança. Em vez de um jogar colectivo, a estrutura move-se por impulsos individuais. É a vertigem do piloto automático que não pensa. Ataca por picos e a seguir faz uma transição defensiva desequilibrada.

Os jogadores movem-se (correm muito) tendo apenas como referência onde partem e nunca onde devem chegar no fim desse movimento. É um estilo emocionalmente forte que confunde adversários, mas esgota-se nisso mesmo. Quando mexe na equipa, Camacho nunca mexe tacticamente. Mexe nas dinâmicas individuais de cada posição.

Como contra o FC Porto em bloco-baixo, em vez de mexer no plano táctico, limita-se a trocar Pereira por Di Maria, sobre a direita. Com Di Maria, estremece esse espaço, ganha mais velocidade, mas a ideia esgota-se apenas nisso. Ou seja, falta padrão de jogo ou circulação de bola.

Quando entra Adu, não entra outro pensamento sobre o jogo, mas só um jogador diferente do que lá estava. Dá apenas sangue novo à posição. Os movimentos continuam dependentes da anárquica inspiração individual.

Camacho quer fazer o primeiro remate ou a primeira jogada de perigo. Era a fórmula do seu Real Madrid como jogador. Mas tal não sucedia por mero impulso individual. Tinha filosofia colectiva para lá chegar e se não o conseguisse movia-se para descobrir como o fazer. O actual Benfica limita-se a abanar com o jogo de cada vez que um jogador, sobretudo nas faixas, arranca com a bola. O jogo apenas ganha um cérebro quando Rui Costa pega na bola e organiza a circulação ou quando, noutro estilo, Nuno Gomes actua mais recuado e procura combinar com Cardozo, mais avançado.O «piloto automático»

Por isso, antes de cada jogo, a grande questão está em saber se Cardozo e Nuno Gomes alinham juntos. É a única pequena sociedade que se detecta no actual jogar benfiquista. Por força das características dos jogadores. Não de um jogar arquitectado. Cada vez mais, no futebol de top, joga-se como se treina. O actual Benfica é o espelho desse facto. Para o bem (emocional) e para o mal (táctico).

Adu e Di Maria nunca «jogaram» no Benfica

No fim do jogo, é comum perguntar como jogou aquele jogador. O conceito jogar está, no entanto, deturpado. Porque não basta ter estado em campo para jogar. Estranho? Não. Porque o conceito jogar tem implícito princípios de movimentos que partindo das características individuais são depois integrados numa ideia colectiva de jogo e, no caso mais particular do jogador, numa dinâmica de movimentos complementar com os colegas mais próximos do espaço em que se move. Ou seja, jogar implica inter-acção e não apenas acção. Por isso, é difícil dizer, por exemplo, se Di Maria e Adu (ou até Cardozo) têm jogado bem no Benfica. Porque, em campo, não se lhes detectam movimentos de inter-acção. Não demonstram um jogar colectivo para lá das dinâmicas individuais (acção) que, com a sua qualidade técnica individual, dão a cada posição. Falta promover a inter-acção (táctica) entre esses movimentos isolados. Falta o lado táctico do jogo. Basta ver Adu ou Di Maria poucos minutos para ver que têm grande margem de crescimento.

Bastam também poucos minutos para perceber que este não será o melhor caminho para o conseguir. Passar da acção para a inter-acção. A única forma do jogador crescer. A todos os níveis.