O ponto de “cristalização ofensiva”

12 de Fevereiro de 2016

Uma equipa a atacar e a outra a defender. Eu sei que são os movimentos coletivos que fazem verdadeiramente uma delas decidir para o seu lado esse eterno duelo futebolístico, mas nessas alturas, quando o jogo fica numa espécie de “beco sem saída táctico”, é inevitável sentir a diferença que cada jogador transmite quando pega na bola nos últimos 30 metros.
Há jogadores que transmitem ansiedade, desconfia-se que saía dali a jogada do golo ansiado. E há outros que transmitem confiança e deixam no ar, pela técnica com “cabeça tática levantada”, a sensação que o golo está mesmo iminente nessa jogada.

O Sporting tem jogadores dos dois tipos e muitos jogos que caem nesse “beco” nos últimos minutos têm sido um “case study” perfeito para descodificar essas duas espécies em campo. O último, contra o organizado Rio Ave de Pedro Martins, foi mais um.
Nesse território onde a ansiedade “corta-se com uma faca”, Gelson transmite a ideia do abre-latas que pode “resolver as coisas depressa”. Não serena as bancadas, mas dá-lhe a esperança de que afinal aquele jogo com tantos jogadores num curto espaço de terreno, pode ser resolvido num simples “um-para-um”. Como, de repente, só houvessem dois jogadores (avançado malandro e defesa cerrado) dentro dele.
Mas, no momento seguinte, a bola vai ter com Brian Ruiz e subitamente tudo parece fazer sentido coletivamente, todos os outros jogadores estão bem colocados e o golo vai surgir dessa ideia coletiva de técnica na tática.
Se o primeiro é uma ilusão (que pode enganar a essência do jogo e da equipa), o primeiro é a realidade (que mostra a essência do jogo e da equipa). Mesmo assim, o golo não surgiu.

O processo ofensivo do Sporting está, neste tipo de jogos (com este tipo de problemas) num ponto de “cristalização de criação ofensiva”. Quer mais espaço, quer relva para embalar desde trás, e ele não existe. Tenta jogar em largura mas mesmo ficando mais perto da baliza sente-se que, no seu jogar, fica mais longe do... golo.
Na passada semana (jornada) escrevia aqui sobre o jogador “desbloqueador de trincheiras”, Montero. É impossível não estar a ver aquele ataque continuado frente ao Rio Ave fechado e não pensar nele. Porque ninguém tem agora a sua tal recepção de bola “anti-ansiedade” de classe decisiva em espaços curtos de remate e golo. Surgiu Barcos e até pareceu que Slimani ficou estranhamente mais pequeno para receber e saltar nos cruzamentos.
Os jogadores não são comparáveis, mas os jogos, naquele momento, são. E uma coisa leva inevitavelmente à outra. O campeonato vai jogar-se em todos estes factores. Que não são “pormenores”, como tanto se diz. São “grandes competências” em curtos segundos na imensidão de uma época inteira.