O princípio da progressão

26 de Março de 2008

O princípio da progressão

Jogar como os grandes para ser como eles. Dito assim, parece fácil. Mas, podem as coisas ser tão simples? Como culminar da progressão complexa que faz a construção do jogar de uma equipa, até pode. A grande questão, no entanto, é prévia. Antes de questionar o jogo da equipa, deve-se questionar como treinar a equipa. Ou seja, até pode-se jogar como um grande, mas a forma de lá chegar (treino) terá de ser diferente. Porque as realidades são distintas. Porque a qualidade dos jogadores é diferente. Não faz sentido, por exemplo, começar a época dando prioridade à posse e circulação de bola em organização ofensiva, quando a equipa vai passar a maior parte dos jogos sem bola no momento defensivo. Portanto, o ideal é começar por treinar os princípios da organização defensiva, e só depois progredir para o outro ponto. Ou seja, temos a nossa ideia de jogo (independente da equipa/jogadores) mas depois deve-se contextualizar a construção dessa ideia (dependente da equipa/jogadores).

É esta a primeira questão que o treinador deve fazer olhando para a equipa: como a trabalhar para chegar ao jogar que pretendo? Isto é, qual o princípio de progressão a utilizar? A construção do Setúbal de Carvalhal é o espelho desta ideia. A contextualização da realidade foi, porém, algo forçada. Porque, sem dinheiro, começou a pré-época quase sem avançados. Pitbull e Edinho chegaram nos últimos dias. Por isso, passou a pré-época trabalhando quase só processos defensivos. Foi com eles solidificados que iniciou a Liga. Foi com eles que cimentou o seu jogar. Depois, quando chegaram os avançados iniciou a segunda fase da construção sobre pilares firmes. Um jogo tacticamente-chave?

A derrota em casa com o Guimarães. Porque a substituição (com 0-0) de um médio (Felipe) mais culto a fechar por um ponta-de-lança (Edinho) renegou todo este princípio de progressão. Perdeu os pilares dos processos defensivos, expôs as suas limitações e perdeu o jogo. Nunca mais Carvalhal cometeu o mesmo erro frente à superioridade adversária. Contra o Sporting, com a mesma tentação de ganhar, nunca subverteu num jogo concreto o princípio de progressão que fez a construção da equipa e, na hora decisiva, reforçou os seus pilares com Paulinho a entrar para a direita, vigiando Pereirinha e tentando, depois, soltar-se em posse.

As defesas de Eduardo e os golos de Pitbull são as fotos do sucesso, mas a base está no triângulo Sandro-Chaves-Elias à frente dos centrais Robson-Auri. Pilares alimentados no treino e no jogo, no jogo e no treino, sucessivamente. Não sei se Carvalhal teria seguido o mesmo caminho se desde o início tivesse todos os avançados. Treinaria de forma diferente? Acredito que já se terá colocado essa questão. A resposta está no relvado. Até na derrota. Ou melhor, sobretudo nas derrotas. Guimarães (jogando subvertendo a propensão do onze) e Naval (jogando sem tempo para treinar).

Criatividade específica

Entender as nossas limitações. Estimular a imaginação para saber defender-se dos defeitos. Incentivar a criatividade para explorar os pontos fortes. Conhece-te a ti próprio! O jogador, primeiro, a equipa, depois. Até cruzarem conhecimentos. Onde? No treino. Como? Com especificidade. Ou seja, a progressão da construção do jogar da equipa depende de como é cruzado com exercícios específicos criados no treino.

Ir percebendo até onde se pode chegar na criação de alternâncias ao nosso jogar. Não tem nada a ver com sistemas. O principio das propensões (entender os jogadores e criar um contexto para entenderem as ideias de jogo) adaptado à realidade. Ir exigindo cada vez mais aos jogadores, mas sem partir a corda das suas limitações. No Setúbal, percebe-se isso em vários jogadores. Por exemplo, como Janicio já não se expõe ao erro, conduzindo a bola em posse só no meio-campo ofensivo (no defensivo processos mais simples), como Elias sabe quando deve abrir em posse dando profundidade, ou, fechar na transição. Do abstracto para o concreto.

Marcar: encostar, sem tocar

O princípio da progressãoOs defesas-centrais vivem para não deixar os avançados moverem-se mas é no poder de antecipação e na intuição como abordam as jogadas que se impõem. Há semanas, vendo o Nuremberga-Benfica com um antigo central de um grande Benfica europeu, perguntava-lhe como se marcava um ponta-de-lança tão forte como o Koller. “Luís, ao lado ou à frente”, dizia-me.

Nessa altura a bola até estava longe. Pois bem, era a altura de procurar pela fera e definir a melhor posição para quando a bola chegasse aos seus espaços (do defesa e do avançado) pudesse chegar-lhe primeiro, à frente, em antecipação. Atrás dele é que não. Se ele ganha o espaço, ganha a bola e…adeus. Lembrei-me disso vendo o Auri a cair muitas vezes no espaço do Liedson. Era um avançado diferente. Levezinho e esquivo, em vez de possante e de choque. Primeira intenção: mantê-lo de costas para a baliza. Como? Limitar-lhe o espaço para virar. Nunca o deixar rodar.

De que forma? Encostando nele, sem tocar. É o chamado espaço oco entre o defesa e o avançado. É onde Auri manda.

O mito da “troca por troca”

É uma das frases mais ditas nas substituições. É, também, das que faz menos sentido. Vê-se um ponta-de-lança a entrar, ergue-se a placa e surge a análise: “Sai o outro ponta-de-lança. É uma mera troca por troca.”. Errado. Porque troca por troca é algo que não existe. Porque não existem jogadores iguais. O que existe são jogadores que jogam na mesma posição. Quanto muito que se movem nos mesmos espaços. Mas, no resto, são diferentes. Nos traços individuais, na técnica, no saber táctico, na mobilidade, na agressividade, etc. É o que basta para dar novos problemas aos defesas e os outros jogadores por perto terem outras dinâmicas inter-ligadas de jogo. Quando, por exemplo, no Guimarães, Roberto substituiu Mradakovic, não é uma troca por troca. Porque são jogadores tão diferentes, que a dinâmica da posição (e do sistema) é logo diferente. Roberto é mais agressivo, abre outros espaços de penetração aos alas e segundo avançado. Mradakovic é o oposto. Cria-se, portanto, como uma sub-dinâmica. Troca por troca, só entrando um clone.