O regresso dos heróis

22 de Fevereiro de 2013

O futebol é uma história interminável na qual ninguém que nasceu e cresceu dentro dele pode fugir. Até ao fim da vida. É uma questão de destino. A Argentina, vulcão de paixões, é um território perfeito para entender como essa fuga é impossível. E, nestes casos, tenta-se mesmo, contrariando os conselhos da vida, regressar aos locais onde antes já se foi feliz. Sucede esta época nos gigantes Boca e River.

Bianchi tinha decidido retirar-se dos bancos em 2006 após uma aventura falhada no At.Madrid. Para trás ficavam cinco anos de títulos (com Libertadores e Intercontinental) no Boca. Talvez os fracassos europeus (antes estivera na Roma em 96/97) tivessem então provocado um sentimento de fim de linha. O caso do treinador sul-americano na Europa é, porém, muito mais complexo. Raros resistem a esse conflito de mundos (táticos, métodos de treino, relações humanas, ambiente) e chocam quase sempre com a diferente realidade (em vez de a entender, tentam transformá-la).

Aos 63 anos, Bianchi regressa ao banco do Boca no mesmo ano em que Ramon Diaz, mais novo, 53, regressa ao do River (onde também ganhara tudo, saindo em 2002) após passar por vários clubes (até na III Divisão inglesa, no Oxford Utd).

O tempo passa mas as ideias de futebol continuam as mesmas. Bianchi mantém o estilo, mas os anos deixaram marcas. A mesma careca com cabelo comprido atrás mais branco, magro e óculos quase na ponta do nariz. Nestes primeiros jogos, tenta reatar a comunicação com a equipa (na tática e nas ordens desde o banco) que procura um estilo diferente, mais apoiado. O intenção de resgatar Riquelme (meio ano sem jogar) tem essa intenção: um jogador para... pensar e que seja o seu prolongamento no campo. O regresso de um catedrático que pode, porém, travar a afirmação de um novo pibe pensador que sai da cantera: Leandro Paredes, membro daquela casta de médios argentinos reminiscências de nº10 antigo que quase metem a sola da bota em cima da bola e param o jogo.

Bianchi sente ainda, porém, os ecos do passado, num onze que, jogando em 4x3x1x2 (boa dupla de centrais Caruzzo-Burdisso) tem o pêndulo-trinco em Somoza e abre muito bem com Ervitti e El Burrito Martinez, também capazes de jogar por dentro (Ervitti mais a segurar, Martinez mais em rupturas) com Silva fixo a nº9 e Acosta avançado móvel. Falta definir o tal pensador na equipa. O elemento que pode tornar o jogo mais lento mas dá-lhe, ao mesmo tempo, o estilo genético próprio. Paredes, 18 anos, e Riquelme, 34, duas gerações, o mesmo fútbol.

O River com Iturbe

O regresso dos heróis O River de Ramon Diaz assume uma estrutura de três centrais (Mercado-Roman-Bottinelli) em 3x4x1x2. Tem um jogo mais direto que o Boca porque os laterais (sobretudo Vangioni, belo lateral-esquerdo) são carrilleros mais clássicos que esticam facilmente a equipa na condução defesa-ataque. No centro, Ledesma manda à frente da defesa e Rojas, interessante nº8 canhoto ex-Godoy Cruz, destaca-se a dar profundidade em passe longo e, depois, sobe bem no terreno. Na frente, uma dupla de avançados pura, com Mora (Benfica) a mover-se a toda a largura do ataque e Trezeguet, 35 anos, no meio, a nº9, sem a mobilidade de outrora mas a mesma agilidade de finalização (a outra hipótese é o esguio Funes Mori).

A maior questão coloca-se em relação ao homem que joga nas costas desta dupla, o enganche 10. Lanzini é a referência mas parece demasiado suave em posse. Joga bem mas perde muitas bolas. Ficam mais as (boas) intenções. É onde surge a hipótese Iturbe que nos jogos em que entra fica entre essa posição central e o lado esquerdo onde se esconde para romper. Combinar este esquema com Iturbe, jogador tipo de partir da faixa numa equipa que não tem...alas, é o principal dilema de Ramon Diaz.

Nas primeiras três jornadas ambos deixam promessas de andar no topo da classificação, mas Lanús e, sobretudo, o Velez de Gareca podem roubar-lhe essas intenções.