O sorriso dos malandros

10 de Julho de 2012

O sorriso dos malandros

Já não tem, claro, as mudanças de velocidade circenses do passado, quando até rodopiava ao meter a bola por cima do defesa e ir busca-la pelo outro lado, mas, por vezes, no fim de um rasgo de jogo bonito, ainda solta o mesmo sorriso malandro em dentes de coelho. A barriguita a mais, a idade, 32 anos, e os prazeres da vida, já retirou Ronaldinho do olimpo dos grandes craques atuais mas há coisas que não se perdem nunca. Rompeu com o Flamengo, rumou ao At. Mineiro, do Rio a Belo Horizonte, outra vida, outro futebol, mas em poucos jogos, o onze do galo com o dentuça a 10 nas costas do ponta-de-lança girafa Jô, está no topo do Brasileirão 2012.

Não é fácil entender estes craques egocêntricos em fim de carreira muitas vezes em idade prematura. O Brasil tem, no entanto, especial vocação para lidar com eles. É o país onde, do Ronaldo fenómeno a Adriano, vejo jogadores às vezes com excesso de peso desmesurado serem tratados como os mais rigorosos profissionais de futuro. Ronaldinho joga quase a passo. Marca faltas, espera um livre direto ou espaço para um passe sem levar com um carrinho em cima (mas, mesmo neste caso, é engraçado ver a forma como no brasil os marcadores respeitam mais esse tipo de craque. Batem mais leve...).

Duvido que o At. Mineiro se mantenha na luta pelo titulo até ao fim, mas tem no banco um dos melhores treinadores do futebol brasileiro a construir equipas: Cuca (antes já fiez belos times no Fluminense e Cruzeiro). O onze tem alas rápidos (Bernard quase voa, Danilinho faz bem a ala direita) volantes operários (Donizete cobre e Pierre encosta nos centrais) e pode lançar o revulsivo argentino Escudero desde o banco.

A noção táctica brasileira cresce a nível interno. Falta a dimensão internacional em confronto com a europa. Em 2011, o Santos de Muricy Ramalho despenhou-se num esquema de 3 centrais contra o Barcelona no Mundialito. Agora, surge o Corinthians de Tite, vencedor da Copa Libertadores frente ao Boca Juniores. É das equipas tacticamente mais rotinadas. Tite já a mete em campo quase em piloto automático.

É outro 4x2x3x1 mas desta vez quem manda na equipa é um volante que se solta: Paulinho. Ao lado de Ralf, mais fixo, pega no jogo, ou cresce fisicamente para ele, dá ordens , corta e joga. Alex é o criativo nas costas de Liedson, deixando Danilo como vagabundo catedrático, enquanto Jorge Henrique continua a tentar acelerar pela direita. Mas quem eu acho que joga muito nesta equipa é outro veterano: Emerson.

Parte desde a esquerda, mas gosta de flectir no terreno, não em diagonais mas para surgir no centro a tabelar, passar ou romper. É um velho malandro com astúcia táctica. Passa e cai. Levanta-se e desmarca-se. E faz golos. Inteligência de rua com 33 anos.O sorriso dos malandros

At. Mineiro e Corinthians, de Ronaldinho a Emerson, no Brasil, por entre a velocidade nas alas e o pica-pedra dos volantes, mandam os velhos caminhantes dos gramados.

Brasil sem “rotatividade”

O Corinthians venceu a Libertadores mas à 8ªjornada está no penúltimo lugar (19º) do Brasileirão. É um bom exemplo para perceber como os treinadores brasileiros têm dificuldade em fazer a rotatividade tão debatida na Europa. A época passada sucedeu o mesmo com o Santos, prolongando-se até ao Mundialito em Dezembro, acabando a lutar por não descer. É intrigante como no Brasil o conceito de rotatividade praticamente não existe. Define-se a prioridade internacional e no campeonato joga quase outra equipa inteira de reservas. O onze torna-se uma sombra errante, cava um fosso pontual enorme para o topo da tabela e compromete toda a época logo no inicio.

Mais do que uma opção, será um caso de incapacidade do treinador brasileiro para entender a realidade competitiva de jogar a top duas grandes competições. Na Europa, tal seria impensável numa grande equipa.

É um debate longo mas antes do conceito do jogo/equipa, o que entra aqui é o problema do treino/metodologia/microciclos. E, de Muricy Ramalho a Tite, falamos de dois técnicos de referencia do atual futebol brasileiro. Para eles, rotatividade é palavra enigmática.