O talento busca a tática

31 de Janeiro de 2013

O talento busca a tática

Fábrica de estrelas, o futebol sul-americano necessita cada vez mais de ter a consciência que todos os talentos naturais que sucessivamente produz, necessitam, no seu crescimento, de aprendizagem táctico-técnica a nível coletivo. Só assim podem, depois, soltarem-se nas exigências da alta competição sénior. O Sul-Americano sub-20 tem provado essa necessidade de conciliação entre futebol natural e futebol fabricado.

1. O primeiro impacto dessa realidade foi a eliminação de Brasil e Argentina na primeira fase. Foi, claramente, o resultado de duas equipas muito pouco trabalhadas. A prova de como no competitivo futebol moderno o talento só não chega.

Na Argentina, é perturbante ver como um onze que junta a atacar Centurion e Iturbe nas alas com Lanzini e Vietto soltos no meio, apoiados pela visão do nº10 Alan Ruiz não consegue, depois, ter um padrão de jogo (circulação de bola) definido, deixando a definição das jogadas ofensivas entregue à anarquia do...talento. O Brasil seguiu os mesmos problemas. Misael (volante mais fixo) e Rafinha (filho de Mazinho, vindo da escola do Barça), sabem organizar desde trás, mas quando a bola entra no ataque essa noção perde-se. Felipe Anderson é um 10 que descai sobre uma ala, mas sem intensidade no jogo. O onze melhora com Bruno Mendes fixo a 9 e Marcos Júnior ou Ademilsson pela ala, mas Adryan, talento criativo do Flamengo, joga sem referências táticas, entre a faixa e o meio.

Duas seleções sem jogo posicional coletivo, apenas entregues à dinâmica...individual. A imagem perfeita do atual estado do futebol formação no Brasil e Argentina a nível de seleções jovens.

2. Paraguai e Colômbia emergiram como as seleções mais fortes em termos de organização. Notável a evolução da escola do futebol colombiano nos últimos anos. Cruzando talento e tática, os médios e avançados têm sempre a perfeita noção dos movimentos a fazer em termos de equipa. Quintero (Pescara) é um 10 canhoto que ilumina a equipa (em 4x2x3x1) sempre com um atento duplo-pivô de equilíbrio, onde Leudo (Estudiantes) é a âncora. Na ala, a seta Cuero (Equidad) na direita, é rápido a dar profundidade em contra-ataque e Nieto (Alianza) que também pode jogar mais por dentro, junta faixas e zonas interiores. Nessa cultura tática, emergiu Palomeque (Alianza) que jogou a lateral-esquerdo e a...extremo-esquerdo. Embora com pontos de partidas diferentes, em ambas posições manteve sempre os timings certos de defesa-ataque-defesa. A nº9, Córdoba não é muito móvel, mas tem facilidade de remate e joga bem entre os centrais.

3. O Paraguai (4x4x2 ou 3x1x4x2) é a equipa mais rigorosa defensivamente, com laterais ofensivos (Mareco, do Libertad, à direita, e Balbuena, do Cerro, à esquerda). À frente da defesa o melhor nº6 do torneio na recuperação e transições: Lucena (Rubio Ñu). Na frente, uma dupla móvel, com Derlis Gonzalez (Benfica) em torno de um nº9 mais fixo (Dominguez ou Montenegro) e um canhoto médio-ofensivo que finta muito, Almiron (Cerro). Se tornar mais robusto o seu jogo (física e taticamente) pode vingar no fútbol adulto, onde já está Rojas (Cerro), o ala que se transforma em interior e vice-versa.

Mais solto a atacar o Chile é, talvez, a equipa mais rápida a ligar meio-campo e ataque, com Rabello (Sevilla) ou Diego Rojas (U.Católica) a nº10 subindo o ritmo da organização ofensiva e servindo um bom nº9 Castillo (U.Católica), mas que precisava de lutar...menos e lapidar mais as desmarcações. Na faixa, Cuevas (O´Higgins) é o tipo de extremo esquivo que põe um lateral louco. Na outra faixa, em diagonais, está Rubio (Sporting).

Uruguai e Peru são outras equipas a destacar (ver caixa) num torneio que apesar de quase ignorado pelo publico argentino, tem na bancada olheiros de todos os lados,

Copinha: Santos sub-20

O talento busca a tática São 100 clubes vindos de todo o imenso território brasileiro, divididos em 25 grupos de quatro, na disputa de um dos mais fantásticos e sedutores torneios de futebol jovem: a Copinha de São Paulo de futebol júnior sub-20. Já vai na sua 44ªedição e esta semana teve a sua Final de 2013, onde se defrontaram Santos e Goiás. Para trás ficara o belo onze do São Paulo (com dois laterais a reter: Lucas Freitas, à direita, e Henrique Miranda, à esquerda) e o Palmeiras (com o perigoso avançado Vinícius). O melhor marcador do Torneio veio de Goiás onde quando começou a treinar era só o... filho do roupeiro. Hoje é uma das maiores promessas de Goiás. Chama-se Erik, 18 anos, avançado rápido que gosta de entrar desde a esquerda em diagonais. Foge à marcação, rasga desde trás e remata para o golo.

Um diamante em bruto como é Neilton, a grande estrela do Torneio no leme do ataque deste belo Santos Sub-20, que nem teve alguns dos seus habituais titulares, como Vítor Andrade ou Felipe Anderson (já no time principal ou na seleção). Assim, no seu 4x3x3, revelou outros craquezinhos (que também já passaram pelo onze principal de Vila Belmiro) como os volantes Pedro Castro (forte, em pose, a ocupar espaços em antecipação) e Leandrinho (rápido a conduzir a bola para o ataque), um pouco atrás do nº10 organizador Leo Cittadini, principal assistente da dupla atacante Neilton-Giva. É um 4x4x2 quase com um quadrado a meio-campo, deixando subir os laterais. A equipa sabe colocar-se bem em campo (trabalho do técnico das categorias de base Claudinei Oliveira) na senda de outras que os escalões jovens do Santos tem dado nos últimos anos. Mais equipa, jogando perto de casa no Pacaembu, ganhou a final, 3-1, ao Goiás. Mais do que um titulo, descobriu como ganhar o...futuro.

Uruguai e Peru sub-20

O talento busca a tática O Uruguai Sub-20 espelha a evolução das bases do futebol charrua, fugindo à dureza em que caíra nas últimas décadas. Sempre em 4x4x2, confirmou um excelente médio que tanto pode ser nº6 como nº8. Cristoforo (Peñarol). Mais à frente, ora na faixa esquerda ou como interior, Laxalt (Defensor) compensa a falta de um médio 10 organizador, mas não é rápido e, por isso, trava muitas vezes o jogo a meio-campo. O ritmo sobe, claramente, quando a bola chega à frente e surge, desmarcando-se em direção á baliza, o veloz Nico Lopez (Roma), predador dos espaços vazios. Na defesa, impõe-se um central gigante: Formiliano (Danúbio).

O Peru busca o renascimento com uma nova geração. Joga com um sistema de defesa a 3 (3x5x2 e laterais, Chavez-Gomez, a subir). Na ligação com o ataque, Flores (Villarreal B) enche o meio-campo, dando liberdade a Benavente, visão de jogo e passe. É um talento peruano já nascido em Espanha e futebolisticamente crescido no Real Madrid, onde subiu este ano à equipa juvenil A. Um exemplo clássico de como o talento natural deve ser enquadrado taticamente no seu crescimento. O Real não olha muito para a sua cantera na hora de construir o plantel principal, mas, no futuro, Benavente pode ser uma bela exceção. Sigam-no.