O talento pode-se esconder em locais “secretos”

19 de Junho de 2016

Seguir o Euro mais através dos jogadores do que pelas equipas. É uma forma diferente, mas, por vezes, mais atrativa de seguir os jogos e perceber o que se passa dentro deles. Detectando talento é o principal sinal para se detectar uma boa equipa, mas nem sempre funciona assim quando o colectivo, por razões mais globais, perde a consistência. Espanha e Croácia foram as equipas que mais gostei, até agora, de ver jogar neste Euro.

A Croácia pelo estilo tecnicista, trocando a bola no pé na condução de Modric e Rakitic. Atrás dele está um “pica-pedra”, como Badelj, mas a forma como, frente à Republica Checa, a cabeça dos jogadores saiu do jogo após as tochas lançadas na bancada que interromperam o jogo, prova como a “táctica emocional” é tão decisiva no futebol moderno. A “trivela” de Rosicky para o golo de cabeça de Skoda e as movimentações (com percepção perfeita dos espaços a ocupar, atrás e à frente) de Darida, são das melhores formas de perceber o que é verdadeiramente a qualidade da “táctica individual”.

Payet torna-se cada vez mais o dono dos “segredos da melhor técnica da França”, como Iniesta, na Espanha, se assume como o novo dono da antiga “casa táctica”, agora desabitada de Xavi. Buscando os maiores impactos provocados desde o banco, Sturridge mudou a face da Inglaterra, um factor “arma-secreta” onde é difícil encaixar um talento confirmado como Griezmann, mas que ainda busca o melhor espaço no onze gaulês de Deschamps.

Ozil, na Alemanha, é quem trata melhor a bola quando colada ao pé, mas o onze foca confundido com a questão de Gotze a “falso 9”. Uma opção que confunde a equipa e o... jogador, um talento hoje indefinido que tem de jogar sobretudo... sem bola, pois é nos seus movimentos de recuo, arrastando marcações para outros entrarem desde trás, que está a sua principal missão, quando ele próprio é que podia ser, como 10, o maior criativo da equipa jogando apoiado e expressando o traço do passe.

2.

A Bélgica tem muitoeurologo futebol dentro do seu onze, mas não é fácil conciliar jogadores de perfil táctico-técnico tão diferente na ligação entre a primeira e segunda linha do meio-campo. Isto é, enquanto Nainggolan, Witsel e Fellaini são mais talentos musculares, Hazard, Mertens e De Bruyne são talentos de técnica pura (com drible). Wilmots, o treinador, tem de encontrar forma de conciliar estas duas expressões de bom futebol. O cruzamento estilístico pode ser feito por Witsel, talvez o jogador que melhor une estas das vertentes, mas que joga demasiado recuado para permitir que Fellaini jogue mais subido (não para ter a bola, mas para... ganhar as bolas divididas, sobretudo por alto). É nesta contradição que caem por vezes várias equipas, o que em campo se traduz na incapacidade de ganhar uma identidade clara.

É sedutor ver nascer Nagy no futebol adulto húngaro, da mesma forma que cativa ver jogadores tidos quase como “simples operários,” no decorrer da época, surgirem na seleção como superiores gestores de jogo: Joe Allen em Gales (um onze que existe muito para além de Bale).

Neste “mundo táctico”, a Itália transforma-se num “case study” pela sua história e pela forma como sem ter grandes referencias de talentos no onze, agarrar os jogos pela zona de pressão que faz no meio-campo, com um trio onde Parolo emerge como o elemento mais tecnicista, o seu melhor jogador em posse. Um espaço que pede jogadores com diferentes formas de resolver o mesmo problema. É essa a minha melhor forma de entender criatividade. É essa a melhor forma de ver jogar Hamsik na Eslováquia. A imagem da “técnica atlética”. Consegue ser, no mesmo jogo, "8" de inicio de construção e "10" de definição e remate. Em nenhum momento, tal se traduz em “dupla personalidade”, mas sim uma “dupla visão” e forma de expressão no jogo. As melhores equipas deste Euro táctico-técnico serão as que tiverem mais jogadores destes.