O treinador que “ganhou sempre”

20 de Janeiro de 2016

José Peseiro é dos treinadores portugueses de quem se pode ter uma melhor opinião. Mesmo que nem seja positiva. Esta frase aparentemente paradoxal resulta de um simples facto: quando falam dele, falam do futebol que as suas equipas jogam. Muitos, claro, acrescentam que “sim, ok, mas perdeu”. Até será verdade nalguns casos, mas sob pena de ver ao fazer em tal uma relação causa-efeito, inverter toda a lógica saudável da análise futebolística.
Peseiro vive assim com duas “pedras de análise” em cima dele. Os resultados falhados e as suas equipas jogarem bem. Como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Não faz sentido.
Ainda há pouco tempo quando foi contratado por um clube que já habituado a ganhar, ele dizia-me que não queria só repetir esses resultados mas queria meter-lhe também um novo estilo mais atraente e sedutor de jogar. Muitas vezes, vendo a sua carreira, estará aqui a parte “mais perigosa” desse risco de “jogar bem” que assume. Querer mudar (princípios de jogo, forma de jogar) rápido demais.
Por exemplo, uma equipa que costumava jogar em bloco baixo e transições rápidas, não pode passar dum momento para o outro para bloco alto e posse. Essa mudança deve ser gradual. Em vez de subir a defesa logo 30 metros de uma vez, subir 10 de cada vez até todos sectores ganharem a consistência do novo modelo (sobretudo a defender). O FC Porto irá, porém, colocar-lhe problemas tácticos bem maiores.
Não sei qual foi o processo que levou á sua contratação. Não terão sido exatamente as ideias preferenciais de jogo o factor decisivo. Mas deviam. Outra questão é, claro, o que vai encontrar. Que tipo de grupo, futebolístico e humano. Para além da estrutura que o vai (e como) receber. Isso nunca foi, ao longo dos anos, um problema no FC Porto. É perturbador que tenha passado a ser algo de que se fale num clube que sempre foi de aço nesse sentido.

Peseiro, sua personalidade, competência e ideias vão entrar neste mundo. E terá de liderar e fazer o clube voltar a ganhar. Não consigo, porém, estender-me muito a falar dele nestes termos “resultadistas” porque a imagem que lhe colo é sempre antes de tudo da forma das suas equipas jogar. Por isso, quando um dia um presidente me perguntou por um treinador a contratar, falei logo nele e sua forma de jogar. Não viria no imediato. Veio no ano seguinte. E ganhou. Um titulo e forma de jogar. Mesmo assim, saiu incompreendido.
O atual FC Porto não é, no entanto, o local ideal para românticos. A necessidade de voltar a ganhar sufoca hoje todo o seu universo, adeptos, direção e vendedor de castanhas.
Ideologicamente, Peseiro “ganhou sempre” em todos os clubes por onde passou. Dentro do campo, porém, a bola teve “outras ideias”. Adaptar toda esta sua “personalidade futebolística” a este momento “anti-romântico” é o primeiro grande desafio. E, logo depois, ganhar o jogo seguinte.