O “treinador-sereno” que veio do fundo das dúvidas

26 de Junho de 2015

Todo este tempo que demorou até a confirmação de Rui Vitória como treinador do Benfica apenas teve o efeito de levantar dúvidas em relação à sua contratação. Dúvidas se seria a melhor opção, pelo perfil do treinador em si próprio e, sobretudo, pela vontade de responder à contratação de Jesus pelo Sporting. Dessa forma, abriu espaço aos defensores (entre adeptos e direcção) da contratação reactiva de Marco Silva. Percebeu-se que houve uma “área de influência” que tentou inverter a opção inicial em Rui Vitória, após revelado o destino de Jesus. Porque, nessa altura, tudo mudara no orgulho benfiquista. A tese da contratação de Marco Silva ganhou assim maior força e provocou o debate (e a dúvida).

Foi, porém, um debate que não teve muito de análise futebolística ao tipo de jogo que cada um dos treinadores opta preferencialmente. Foi antes sobretudo de análise a qual deles iria responder melhor às novas circunstâncias, quer internas, quer de combate externo. Nesse sentido, Marco Silva levava emocionalmente clara vantagem.

No fim, manteve a “opção serena” por Rui Vitória, o treinador “low-profile” que faz crescer jogadores (e olha para a formação), visto desde o início do processo (pós-dispensa de Jesus mas pré-ida deste para o Sporting) como o “treinador competente ideal para deixar também a estrutura brilhar”.

Não acredito na sua aposta a partir da “fábula da formação”. É, claro, de elogiar um clube querer apostar em jogadores feitos nas suas escolas. O Presidente falou em ter na próxima época cinco jogadores saídos do Seixal no plantel principal. Só que as coisas, na prática, não funcionam assim por decreto. O único critério que pode existir para essa aposta em jogadores da formação (cinco, sete ou… quatro) é a qualidade. Se ela não estiver maturada nesses jogadores, essa subida será contraproducente.

Rui Vitória já mostrou, num trajecto vindo desde as profundezas do nosso futebol, que é um treinador à altura do desafio do banco da Luz. Os seus conceitos de jogo são outra questão. Sem dramas, terá agora sobretudo um desafio de upgrade ao ponto de partida do seu pensamento futebolístico.

COMO CONSTRUIR O NOVO JOGO

Mais do que o perfil, interessa agora olhar para Rui Vitória numa análise táctico-técnica: o modelo de jogo preferencial adaptado às circunstâncias de cada clube que treina. Ao contrário das referências que Marco Silva já poderia dar nesse contexto, nunca treinou um grande. É possível, no entanto, projectar as suas ideias, num contexto e construção diferente.

No Paços e V. Guimarães montou essencialmente equipas de organização, mais do que equipas de pressão. Isto é, soube reconhecer as limitações (pontos fracos) das equipas e construiu o seu melhor futebol a partir dessa base. um 4x2x3x1 que variava para um 4x3x3 de desenho assimétrico, por um dos alas jogar mais por dentro em diagonal, que quase fazia parecer um 4x4x2. Quando perdia a bola, queria que a equipa recuasse para se reorganizar rapidamente em largura no momento defensivo. Esperava então o momento de recuperar a bola e sair num ataque rápido.

Na Luz, o princípio será, obrigatoriamente, o inverso. Isto é, começar antes por reconhecer os pontos fortes e construir o seu melhor futebol em cima dessas bases, dando-lhe a consistência defensiva sem esta ter prioridade de construção do modelo de jogo, como fez nas outras equipas. Ou seja, Rui Vitória terá agora (ao invés do passado) de começar a pensar a sua equipa a partir dos seus pontos fortes, de ter a bola e do ataque continuado. É um percurso natural. Mais difícil seria o inverso. Este salto na carreira terá de significar um salto na forma ofensiva e autodeterminada de pensar o jogo, sem olhar para o adversário primeiro. Só assim, claro, se pode treinar um grande no nosso futebol.

DESTINO: QUANDO VAI MARCO SILVA TREINAR UM GRANDE?

É perturbante ver como após todo este processo cruzado (e até pensando no que foi a época passada dos três grandes) Marco Silva acaba por ficar fora do “banco” de um grande por força de questões extra-competência que o ultrapassaram. Fica-se, porém, com a clara sensação que será ele o próximo a entrar quando um desses dois bancos (Luz ou Dragão) ficar vago, seja por que razão ou altura for. Pode ser rápido, pode demorar anos.

Marco Silva é hoje elogiado sobretudo pela sua personalidade e imagem que transmite. A época “debaixo de fogo interno” no Sporting reforçou essa perspectiva, mas mais do que esses traços de competência segura, o que faz a essência do treinador-Marco Silva é a sua ideia de jogo (a posse que busca profundidade sem com isso entrar em contradição, mas procurando médios capazes de ler o jogo dessas duas formas diferentes, ao ponto de poder moldar estratégias para os jogos, sem com isso chocar com o modelo) e forma como a procura operacionalizar (a comunicação com os jogadores e o treino como principio do... jogo). Tudo isto vale muito mais do que vê-lo apenas como o treinador ideal para ser contratado como resposta a uma contratação de um rival. E, ainda bem que, neste momento, fugiu a isso.

PROCESSO: O DILEMA DE COMO GERIR A CARREIRA

Acredito que, neste momento, o maior dilema para Marco Silva será decidir qual a melhor forma de gerir a sua carreira nesta fase. Essa melhor forma não pode ser, no entanto, a de ficar na expectativa à espera do tal momento de entrar num grande. Também não vejo como aconselhável nesta altura um clube português de menor dimensão. Na convicção que a melhor ideia é continuar no activo, a hipótese estrangeiro será a melhor saída, mas, aqui, ironicamente, nem me parece que exista a obrigação de um grande clube para ganhar títulos. O ideal é um bom clube para jogar bem, mete-lo lá em cima no seu campeonato, e, capitalizando a boa imagem (táctica e humana), deixar (no clausulado do contrato) a tal porta aberta para aquilo que penso ser, indiscutivelmente, a médio-breve prazo, o seu destino em Portugal: treinar um grande.

Marco Silva foi apanhado no centro duma tempestade. Rui Vitória entrou serenamente como se não fizesse parte dela. E, em rigor, não faz.