O triunfo «pica-pedra»

11 de Dezembro de 2008

O triunfo «pica-pedra»

Joga como o futebol fosse uma questão burocrática. Cumpre as formalidades de levar a bola da defesa para o ataque e decide bem o que fazer quando chega o momento de tomar a última opção de passar ou rematar. Esta descrição não parece muito entusiasmante para um jogador de futebol, mas ela é a definição do melhor jogador do Brasileirão 2008. Mais estranha se torna porque foge às velhas lendas brasileiras que contavam dribles e jogadas fantásticas. O decálogo táctico de Hernanes é, no entanto, a face mais fiel do que se tornou, no colectivo e no individual, o novo futebol brasileiro. Guiado por este estilo, o São Paulo conquistou o seu terceiro titulo consecutivo de campeão brasileiro. Monta o tradicional 3x5x2 sul-americano, faz dos laterais (Joilson-Jorge Wagner) quase extremos, segura o centro com volantes fortes (Hernanes-Jean) plantados à frente de três zagueiros durões (Rodrigo-André Dias-Miranda), mete um jogador híbrido mais à frente (Hugo) melhor a pressionar que a jogar e solta no ataque dois jogadores, um mais móvel (Dagoberto) e outro mais de área (Borges).

Está aqui o retracto do campeão brasileiro. Agora tentem descobrir o craque. Difícil, não? Claro, porque ele… não existe. Por isso, a admiração por Hernanes. Ele é o melhor pela simples razão de que é ele o dono da bússola táctica do jogo em campo.

Muricy Ramalho é hoje o treinador mais conceituado do interno futebol brasileiro. Sabe entrar na cabeça dos jogadores e acumula títulos. Mantêm uma postura elegante em fato-de-treino e vê-se que gosta de falar do jogo, debatendo ideias, mas a dungazização do futebol brasileiro atingiu os seus clubes e tornou o campeonato brasileiro perturbador. Nem sequer se aproxima do melhor da Europa na táctica porque vendo os jogos fica-se muitas vezes com uma sensação desconfortável.

Sinto isso vendo o último jogo do São Paulo em Goiás. Tinha de pontuar para ser campeão e Muricy montou um 3x5x2 que tinha como base a marcação individual no meio-campo. Por isso, meteu outro médio que já fez antes de lateral-esquerdo, Richarlyson, e colocou-o no centro a marcar em cima o melhor jogador da equipa adversário, o veterano Paulo Baier, que de outras posições também virou agora médio. Com esta estratégia, gerida em campo por Hernanes, comeu a bola, mordeu os adversários e ganhou os espaços.

Esqueçam, portanto, a face artística que era comum no mundo canarinho.
Numa análise linear, é difícil imaginar todos esses créditos de Muricy aplicados no futebol europeu, onde o pensamento táctico sobre o jogo (e moram os verdadeiros craques brasileiros) é, claramente mais evoluído. É o chamado trunfo pica-pedra. Em vez da sinfonia dos dribles, carrinhos de uma nota só.