O último sonho americano

10 de Dezembro de 2001

Uma existência quotidiana, banal até nos seus mais pequenos pormenores, que, subitamente, desde o coração da Big Aple á Indiana profunda, adquire contornos de abstracção sonhadora na visão dos mais astutos e sábios observadores, como foi Andy Warhol, fundador do movimento artístico que nos anos 60, após passar longos tempos dando a volta ao mundo, observando silenciosamente de máquina fotográfica em punho toda a fauna humana, conseguiu, num misto de radical e dandista, reproduzir em tela e imagem a sociedade americana: a pop. art. As suas figuras de eleição são grandes ícones da comunicação, seja ela política, cinematográfica, publicitária, de todos os lados: Marilyn Monroe, Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Elvis Presley, Grace Jones, Nixon e Mao. Todos lado a lado com a comida enlatada, a sopa Campbell, a Gioconda do Séc. XX, os horror do quotidiano, os conflitos raciais, a cadeira eléctrica, os acidentes de trânsito, o banal, o poético e as flores.

Qualquer tema é passível de ser assimilado, reduzido, ilustrado, colorido, multiplicado automaticamente numa atmosfera tragicamente dândi. É, numa palavra, o último refúgio da mente humana na selva urbano,., Numa definição artística, a pop art. Numa definição social: o Underground, o marginal. Warhol, ele próprio entretanto transformado também um ícone, expôs por todo o mundo nos museus de arte contemporânea, desde Filadélfia, a Amsterdão, passando por Estocolmo, Paris, Chicago e Londres. A sua casa laboratório mundano ganharia o nome The Factory, a fábrica. Por todos os cantos espalhavam-se presentes que comprara em viagens pelo mundo e cujos pacotes, depois de regressar, nunca abria. Morreu em 1987. Rico, temido, respeitado, odiado, idolatrado e homossexual, vitimado pela doença do final de século, a Sida.O último sonho americano

Em toda esta encenação nunca entrou o futebol, um ser menor na sua dimensão europeia, o chamado Soccer, na sociedade americana de caricaturas, para onde, apesar deste desinteresse cultural de uma nação jovem, ainda na puberdade histórica, com apenas 200 anos de existência, para ela rumaram, em fim de carreira, muitos monstros do futebol, como Pelé e Cruyff, para quem o universo americano do soccer tornou-se, na terra das últimas oportunidades. Um dourado crepúsculo de carreira ou um mero cemitério de elefantes? No pôr do sol da Florida, no crepúsculo de Tampa Bay, como no mar das Caraíbas que namorava o pueblo de Santa Marta na Colômbia, Carlos Valderrama ainda parece o mesmo Pibe que há três décadas atrás começou, no Unión Magdalena, a dar os primeiros pontapés na bola, pela mão de seu pai Carlo Jaricho, então defesa central do clube que, em breve, iria descobrir o jogador mais famoso da história do futebol colombiano.

Em 1996, depois de passar por França e Espanha, deixou La cancha de Barranquilla e partiu rumo ao American Dream. Hoje, com 40 anos, tornou-se uma estrela do soccer, onde passeia o seu futebol rendilhado, poema de técnica. Conserva o mesmo estilo dengoso e cerebral. O cabelo enorme, louro e desordenado, ecos do Gullit branco, as pulseiras e os colares da Sierra Nevada, a camisola por fora dos calções e o olhar meio perdido, sempre de poucas palavras Todo bien, todo bien, repete ao ritmo do toque, o estilo de jogo que, nos anos 90, deu uma identidade própria ao fútbol colombiano de Pacho Maturana. Do outro lado, nas margens do atlântico, está outro outrora profeta do toque, Adolfo Valência, El Trem, jogador do Metro Stars, o rival de Nova Yorke, onde, nos anos 70, explodiu o novo futebol americano, a meio caminho entre o desporto e o espectáculo, distante dos longínquos anos 50, quando no Mundial do Brasil venceu a Inglaterra por 1-0.

Tudo começou em 1975, quando, por cinco milhões de dólares, o Rei Pelé, então com 34 anos, assinou pelo Cosmos de Nova Iorque, equipa propriedade da Warner Comunication. O sucesso comercial do Cosmos motivou outras grandes multinacionais a investir no soccer, e, desta forma, muitas estrelas já veteranas, como Cruyff, Beckenbauer, Best, Eusébio, Chinaglia, Romerito, Neeskens, Van der Elst, Rensenbrinck, Krool e Muller, entre muitos outros, rumaram aos states para um milionário fim de carreira. Foram os tempos áureos da NASL, National Soccer League, jogada, em finais dos anos 70, em relva sintética e com regras própria que não permitiam empates. Até a esfinge do Futebol Total, Rinus Michels rumou aos States, tornado-se teinador do Washgington Diplomats.

O último sonho americanoToda esta encenação não tinha, no entanto, qualquer base sólida. Alguns anos depois, com a fuga dos milhões de dólares dessas multinacionais, o soccer voltaria a cair na sombra dos grandes desportos norte americanos como o basebol, basquetebol ou football americano, de onde só voltaria a sair em meados dos anos 90, quando Havelange conseguiu levar o Mundial para os EUA. Os estádios encheram-se, mas não de americanos. Espécie de microcosmos do mundo, as bancadas foram invadidas por milhares de emigrantes de todo o mundo, seduzidos pelo american dream, mas sempre saudosos dos genuínos traços culturais dos seus países. Baseado sobretudo na chamada segunda geração desses emigrantes, o soccer reconstruiu a sua imagem, formou uma selecção internacionalmente competitiva e, a partir de 1996, criou o seu novo campeonato, a MSL, Major Soccer League, que, apesar de apostar em jovens valores americanos, conserva os mesmos traços mercantilistas de outrora, sendo suportado por financiamentos privados e continuando a apostar, embora menos, em estrangeiros no final de carreira. As negociações e contratações de jogadores é feita apenas pela própria Liga, e não pelos clubes, estando sujeitas a um plafond salarial que tem provocado grande contestação. No caso de perderem o seu suporte financeiro, a gerência dos clubes passa a MSL, o que sucede actualmente com San Jose, Dallas e Tampa Bay, enquanto o DC United está a venda.

Adorado pela á comunidade latino americana de Mutiny, Valderrama assinou por mais dois anos e, co 41 anos, continuou a perfumar o soccer com a sua técnica. Para ele, como para Stoichkov em Chicago, estes anos no futebol americano não são meros retiros dourados, como pareceu ser a intenção de Lotthar Matthaus, que, depois dos 40 anos, passou, sem glória pelo Metro Stars. Apesar de todo este mundo de sonhos, sombras e ilusões, a United States Soccer Federation foi fundada no longínquo ano de 1913, filiando na FIFA poucos meses depois. O grande momento da sua história figura no Mundial de 1950, quando uma pitoresca selecção americana composta por descendentes de italianos, belgas, portugueses, e, entre outras origens, vários latino americanos, venceu a poderosa selecção da Inglaterra, por 1-0 com um golo do haitiano Larry Gaetjens. Dias depois, esta mesma selecção americana seria goleada pelo Chile por 5-2, mas com aquele golo, Gatjens ficou famoso no futebol mundial. Meses depois era contratado pelo Racing de Paris. Á sua chegada a França, declarou logo: Nunca fui cidadão americano! A cultura desportiva americana está muito distante dos valores que fizeram o sucesso do futebol noutras regiões do globo.

Os americanos não entendem, inseridos que estão numa sociedade de exageros e espectáculos encenados, o interesse de um jogo que pode terminar empatado 0-o ao fim de noventa minutos de no stoping play, sem para de jogar, como não se cansam e lembrar os comentadores televisivos que, de tempos a tempos, tem de narrar u jogo de soccer. O que é isso, comparado com os 102-101 ou 98-103 da excitante e saltitante NBA?

Há aqui uns anos, nas vésperas de mais um excitante SuperBowl, o treinador dos New York Giants, uma das equipas que ia disputar o supremo titulo do Football Americano, estava no centro da polémica. Um ano antes, quando ordenara a substituição de um jogador seu, este, insatisfeito, atirou-lhe, ao sair das quatro linhas, com um copo de água. Os jornalistas, ansiosos de novas reacções do técnico, voltaram a lembrar-lhe a história, ao que ele respondeu: "Hey! Isto não é um jogo para indivíduos bem-comportados!". Este episódio, um entre milhares confirma definitivamente o que aos olhos europeus já parecia claro: o futebol americano é um desporto feito e visto quase exclusivamente só por americanos. Uma situação deste tipo seria impensável no quadro do "soccer" europeu.

O último sonho americanoQuase todas as grandes soccer stars revelam um apelido cujas raízes moram longe dos EUA. Olhando a incomensurável riqueza multirracial e étnica que o continente americano comporta, pode-se imaginar, no futuro, um futebol, para quem a miscegenação de raças é uma dádiva, de grande nível internacional. Há que trabalhar sob a formação, onde poderão estar, quem sabe, os milhares de jovens negros, mais cativados por outros desportos, que habitam os subúrbios das grandes metrópoles. Inseridos num plano global, poderão produzir, num futuro a longo prazo, um verdadeiro estilo de futebol americano, hoje sem identidade própria, pedido entre o rudimentar perfil britânico e o tecnicista e aguerrido estilo latino americano. Bruce Arena, o seleccionador nacional, antigo jogador, ele próprio filho dessa babilónia de culturas que é a sociedade norte americana, será o homem ideal para entender e congeminar essa nova imagem do soccer, hoje simbolizada pelo jovem avançado centro Landon Donavan, 19 anos.

Na baliza, um guarda redes que durante alguns anos chegou a trocar o soccer pelo football americano: Tony Meola. Em 1994, ele foi, junto com o futebolista-cantor Alexi Lalas, hoje no Los Angeles Galaxy após um ano de retiramento, e um grupo de figuras como Tab Ramos, Claudio Reina, Marcelo Balboa, Coby Jones, entre outros, um dos grandes símbolos do novo soccer que, por fim, parecia cativar o coração americano. Criada no seguimento dessa onda dessa ilusória entusiasmo por empresas privadas, a MLS, Liga americana de futebol, disputa-se em circuito fechado, sem subidas ou descidas. O oposto de tudo o que representa a emoção e as paixões que o futebol movimente no cenário europeu. Por isso, é que, como há tempos dizia uma estudioso do fenómeno futebolístico americano: “O futebol nos EUA é um desporto de futuro, e sempre o será!”