O velho continente futebolístico

07 de Abril de 2015

O País de Gales é das seleções que mais entusiasmo desperta neste apuramento. É o país que lembramos sempre pelos grandes jogadores que nunca atingiram um Mundial ou Euro. Sempre que se olha para Giggs pensa-se nisso. O alargamento da qualificação e valor do atual onze abriram-lhe novos horizontes. E Bale ganha maior projeção. Hoje é difícil definir que tipo de jogador é exatamente. Já não é lateral, perdeu a ala esquerda ofensiva e agora que, no Real, mora desterrado na direita tenta todas as semanas descobrir “planos de fuga” do labirinto em que caiu.

Até que chega à seleção e pode fazer... tudo o que quer.

Em Israel surgiu como segundo avançado solto a partir do centro. Nessa altura, a atacar, a equipa ficava quase em 3x5x2 ficando o equilíbrio à frente da defesa com Ledley e o inicio de construção entregue à visão técnica da dupla Joe Allen-Ramsey, ficando Bale numa linha mais subida, com Robson-Kanu mais na frente. Sem bola, fechava-se em 5x4x1 do qual só Bale estava liberto de obrigações defensivas (ficava só na frente e era Kanu que fechava na esquerda). Uma equipa toda montada em seu torno.
A sensação tática mais inovadora foi ver a Croácia mais bem organizada colectivamente, sem perder talento individual. Há muito que não via uma seleção da velha-Jugoslávia, dominadas quase sempre pelo temperamento dos seus jogadores, tão bem organizada, nos posicionamentos e dinâmicas, a partir do triângulo do meio-campo em “2x1” (dentro do 4x2x3x1) com Modric-Brozovic desde trás no inicio de construção, ficando Rakitic mais adiantado (nas faixas Olic-Perisic e Mandzukic a 9).

O velho continente futebolísticoBrozovic no centro em vez de descaído para uma ala, como no Inter, mostra ser dos médios com maior “potencial pensador” do atual futebol europeu. Ao lado, Modric conduz a bola com um sentido de organizador imperturbável de uma área à outra. Nunca procura protagonismo além do colectivo. Se tal surgir, sai naturalmente da inteligência do seu jogo, nunca de invenções individuais de habilidade. Esmagaram a Noruega (5-1).

A Bulgária não tem craques para desequilibrar e o novo selecionador Petev (que levou o Ludgorets da II Divisão até ao titulo) sabia disso contra a Itália. Montou assim um 4x2x3x1 em bloco baixo e transições rápidas para o ataque. A recuperação e lado agressivo do jogo é dado pelo trinco Dyakov, mas os últimos 30 metros são organizados, com criatividade veloz, por Popov, atrás do nº9 Micanski, que fez um golo de cabeça meio em voo com o peso da “montanha” Barzagli literalmente a cair-lhe em cima nas costas.

É comovedor ver uma equipa que sente só poder discutir um jogo a partir da grande entrega física. É impossível, porém, crescer a partir daí. Por isso, a equipa só ganhava maior dimensão nos pés da dupla Popov-Micanski.

HOLANDA: ONDE NASCE A CRISE DE JOGO?

É perturbante ver a crise em que caiu o jogo da Holanda. E falei no jogo, não nos resultados. Contra a Turquia, aconteceu o pior que pode passar a um onze laranja: perder a posse (ou controlo) da bola.

Não consegue ter um circuito preferencial de jogo. Em 4x3x3 com De Jong a trinco e Wijnaldum preso a nº8 sem crescer no jogo, Sjneider fica um “elemento perdido” a nº10. Na faixa, Afelay é um “talento adiado” e não entra de fora para dentro. No outro lado, Depay, neste contexto, tem um jogo individual quase só dele. Empatou a acabar (1-1) quando já tinha o gigante Dost na frente ao lado de Huntellar. Saltava, assim, a sua zona de construção/circulação.

O problema começa à frente da defesa, na saída de bola que só pode melhorar com outro tipo de pivot. Mudar o “pica-pedra” De Jong pela condução de Blind e fazer de Sneijder, aos 30 anos, um regista mais recuado. Pode ser uma dupla macia para uma zona que também exige pressão defensiva mas é a única forma de pensar que faz sentido para regatar o estilo.