O Vitória de «Jota-Jota» 74: «Drible-macumba»

11 de Setembro de 2014

O grande craque, o homem que fazia todos se levantar das cadeiras quando recebia a bola, muitas vezes perto da linha lateral num jogo de pés desconcertante, tipicamente africano, trazendo o cheiro mágico do futebol ultramarino, que tantas glórias deu á bola lusa, chamava-se Jacinto João, o “Jota-Jota”.

Foi lançado no Vitória por outro grande mestre, Fernando Vaz, outro homem avançado no tempo que sorvia futebol noite e dia. Recordo-me bem de o ver jogar, e para quem, como eu, começava, nessa altura a começar a ver, apesar de menino, o futebol com olhos mais adultos, ele era dos tais jogadores que fazia qualquer pessoa gostar de futebol.

Pela sua postura humana, o sorriso matreiro de quem se preparava para fazer qualquer “maldade” aos defesas adversários, a forma sincera como soltava o seu talento, sem rebeldias temperamentais, mas antes com muita cabeça, nas chuteiras e no cérebro, driblando, driblando, o chamado «drible-macumba», zigzags, passes certos e remates para golo. Era a personificação da Angola matreira com a bola, de couro ou trapos. Tinha uma forma de correr hipnotizante, nem era muito rápido, mas aquela perna meio torta como amansava a bola , quase como um encantador de serpentes diante do cesto, era deslumbrante.

Tomé, outra figura do mundo do futebol sadino, recordou-o como “Uma cobra por entre minhocas..”, citando também a sua “perninha marota” que fizeram dele um dos melhores extremos-esquerdo da história do nosso futebol, por cuja selecção jogou 10 vezes. Poucas, tinha talento para muito mais.

Esse saudoso Vitória, filho de uma terra que sempre soube distinguir o bom futebol dos meros especuladores, será, para a eternidade, uma das maiores referências de qualidade pura nos relvados portugueses, longe do poder dos três grandes, que também deixou as suas marcas nas competições europeias (nessa época de 73/74, eliminaria, na Taça UEFA, o Beerchot da Bélgica, com duas vitórias por 2-0, o Racing White, também da Bélgica, com outras duas vitórias, 1-0 e 2-1, o poderoso Leeds de Inglaterra, vencendo em Setubal por 3-1 após perder 1-0 na Inglaterra, acabando por ser eliminado nos quartos de final, pelo Stuttgart, com derrota na Alemanha, 0-2, e empate no Bonfim, 2-2).O Vitória de Jota Jota 74 Drible macumba

Já passram dez anos desde que o "Jota-jota" partiu deste mundo.

Partiu com o mesmo semblante tranquilo, mesmo que a vida, nos últimos anos, lhe roubasse muitas das maiores alegrias. Homens destes, como diria um poeta brasileiro do qual não me recordo o nome, nunca morrem... «encanta-se!» A canhotinha torta de «Jota-Jota» continuará a driblar para a eternidade.

Há 40 anos, o Vitória tinha no "banco" um dos maiores mestres da história do futebol português: José Maria Pedroto. Sob as sábias ordem do "Zé do Boné", uma sedutora equipa sadina amante do bom futebol, tecnicista, daqueles que adorava ter a bolinha no pé e fazia dela o que queria, com astúcia táctica assimilada, manteve-se no comando do macrocéfalo campeonato português até á 11ª jornada.

No onze base,em 4x3x3, estavam grandes e pequenos monstros, na dimensão e no tamanho físico, como Octávio, médio estratega de grande habilidade que jogava sempre de sobrolho carregado e dentes cerrados para quem a bola devia ser só dele, e José Torres, o bom gigante, na frente de ataque com o glorioso passado nas suas costas ansioso por provar que ainda devia estar, nessa altura a jogar na Luz, que então preferira contratar para o seu lugar o rebelde de brinco Vitor Baptista.

Outras figuras inolvidáveis são o inteligente médio ofensivo Duda, dono de forte remate de meia-distância, perfeito no controle da bola e na visão de jogo, um brasileiro, digamos, tacticamente avançado no tempo, que Pedroto logo levaria, nas épocas seguintes, para o seu grande FC Porto, o trinco Matine, outro gigante, sempre no caminho da bola, num tempo em que não se falavam em linhas de passe ele já sabia empiricamente o que isso era e metia-se sempre no caminho para as interceptar, e o veloz e incansável Zé Maria, os laterais Rebelo, á direita, e Carriço, á esquerda, e os centrais José Mendes e Carlos Cardoso, entre muitos outros.

O Vitória de Jota Jota 74 Drible macumba 1A equipa base do Vitória Setúbal preparada para defrontar o Belenenses, no Restelo, no Campeonato 73/74, onde surge com o seu onze base:
Joaquim Torres; Rebelo, Cardoso, Mendes e Carriço; Octávio, Matine e José Medes; Duda, José Torres e Jacinto João. Uma grande equipa mas que, num campeonato longo, sofreu com o facto de não ter um banco á altura deste fabuloso onze titular. Depois, no decorrer da época, Pedroto entrou em conflito com a direcção, saiu, e foi substituído por José Augusto.

A equipa sentiu a troca, perdeu pontos em casa com equipas teoricamente mais acessíveis, depois de ter derrotados os grandes (entre eles o Benfica, na Luz, por 3-2, e o futuro campeão nacional Sporting, logo na jornada inaugural) e acabaria por terminar em terceiro lugar.

Espaço nostálgico sobre lendárias figuras do velho futebol português. Um exercício de memória cruzada entre a realidade e a forma como, no imaginário construído pelo tempo, as gostamos de recordar, sem recurso a registos ou jornais velhos.