O Zico e o Sócrates já não moram aqui

30 de Abril de 2015

O Zico e o Sócrates já não moram aqui

Desde o primeiro olhar, fui ensinado a apreciar o futebol na sua vertente essencialmente técnica. Cresci convencido que uma vitória só poderia atingir toda a dimensão de classe e beleza se expressada nessa arte, sem perder, claro, sabedoria tática. Quando esta ideia era atacada, a resposta era fácil: o futebol brasileiro. Mas os tempos mudam. Hoje essa resposta não tem a mesma eficácia. O lado “pica-pedra” do futebol brasileiro tem ficado visível nos estaduais deste ano. A “dungazização” do estilo triunfa nos maiores campeonatos, Carioca e Paulista.

Olhando os quatro finalistas (Vasco da Gama-Botafogo, Palmeiras-Santos) é difícil encontrar os tais tecnicistas que faziam a diferença. É até curioso que, ao contrário da história estilística, isso encontra-se hoje mais nos gramados paulistas que nos cariocas.

Nesse sentido, Palmeiras e Santos têm dois nº10 com reminiscências dos velhos tempos: o chileno Valdivia no “verdão”, embora cada vez menos rápido, e Lucas Lima no “peixe”, um “10 moderno”. Ambas as equipas montam-se em 4x2x3x1 com dupla de “volantes” (o duplo-pivot brasileiro) a mandar tacticamente na equipa à frente da defesa.

No Santos, Robinho, aos 31anos, sem a mesma “ginga zig-zag” de outrora e com musculatura herdada do futebol italiano, joga desde a esquerda, apoiando o veterano avançado-centro Ricardo Oliveira, 35, regressado dos Emirados Árabes. Com poder de desmarcação em diagonais curtas, continua a marcar muitos golos.

O Palmeiras (que esta época contratou 21 jogadores!) tem um triângulo de médios forte, com Arouca (motor das transições em posse) e Robinho (médio que avança e recua, equilibrando o sector nos diferentes momentos do jogo). Com este escudo-protetor, os avançados têm mais liberdade.

Atenção à mobilidade, desde a ala, de Dudu, tecnicista rompedor e com remate, surgindo perto de Leandro Pereira (ou Cristaldo) no centro, enquanto desde a esquerda joga a passada larga física de Rafael Marques.

Na segunda mão da meia-final contra o Corinthians, sem os seus avançados de referencia, surgiu Valdivia como falso 9. Nesse papel quase desapareceu do jogo e saltaram mais à vista desde os flancos Dudu e Rafael Marques.

Ausente da Final a equipa que parecia mais forte: o Corinthians de Tite. Perdendo Guerrero, o seu nº9 peruano, afectado com dengue, surgiu a nº9 Wagner Love, claramente com excesso de peso. O onze manteve velocidade na faixa com os laterias ofensivos Fagner-Fábio Santos e os piques do colombiano Mendoza na esquerda, soltando o veterano possante Danilo entrelinhas, mas perdeu faro goleador. Tem, porém, o ultimo nº10 genuíno: Jadson, que neste 4x2x3x1 joga desde a direita, fazendo de cada passe um lance de perigo (mete a bola onde quer).

CARIOCA:DUELO DORIVA-RENÉ SIMÕES

Um sinal da “europeização” brasileira é o afastamento dos antes adorados sistemas de 3 defesas e laterais ofensivos. Todas as equipas que surgiram nas meias-finais utilizaram preferencialmente sistemas de clássica defesa a “4” (só o Botafogo montou uma vez o 3x5x2).

O Vasco da Gama, regressado da II Divisão, surgiu num preferencial 4x4x2 com Gilberto-Rafael Silva (ou Yago) na frente. Guinazu, Serginho e Júlio dos Santos seguram o meio-campo, largando o médio ofensivo Marcinho no apoio ao ataque. É uma equipa muito bem orientada por Doriva, com cultura táctica, sabe encher muito bem o meio-campo e raramente se desequilibra.

Vai defrontar o Botafogo de René Simões (que caiu na II Divisão), outra equipa também perto do 4x4x2, com Bill a nº9 clássico e Rodrigo Pimpão a destacar-se nas rupturas desde trás. Um onze comandado pelo trinco Marcelo Mattos, que joga de memória à frente da defesa.

Duas grandes finais como observatório perfeito do futebol brasileiro atual. Mais táctica a carioca, mais técnica a paulista. São os jogadores que o dizem.