OCHOA: Pisar a linha com consciência.

15 de Agosto de 2014

OCHOA: Pisar a linha com consciência.

Desde cedo uma sensação, pelo seu estilo e aparência chamativos e talento debaixo dos postes, Guillermo Ochoa tem marcado a sua carreira pelas boas escolhas fora das quatro linhas e também por ser um exemplo de como se deve defender pisando a linha.

Do jovem Memo que o globetrotter Leo Beenhakker lançou com apenas 17 anos no América, aos dias de hoje há uma linha temporal de 12 anos que por apenas uma vez foi interceptada quando, em 2011, Ochoa acusou positivo no controlo antidoping e perdeu a chance de assinar pelo Paris Saint-Germain. O facto de ter ingerido carne contaminada com a substância clenbuterol fez com que apenas o então recém-promovido Ajaccio estivesse interessado no arquero Mexicano.

Com um salário mais baixo do que aquele que recebia no América, e parcialmente pago pelo canal televisivo Mexicano Televisa, Ochoa começou a jogar pelo seu futuro, consciente de que a sua decisão de entrar pela porta pequena o faria amadurecer e crescer numa carreira ainda na sua metade.

OCHOA: Pisar a linha com consciência.Ainda que, estatisticamente, tenha sofrido 186 golos dividos por 116 jogos e por um total de 10 mil e 437 minutos em campo, a somar a apenas 22 jogos invioláveis, factos agravados pelo peso de ter sido o guardião mais batido em duas temporadas, Ochoa consagrou-se como um exceler da arte de defender dentro da baliza e também pelos atributos mentais, tais como a segurança no seu ego e reacções de tranquilidade, que conseguiu desenvolver ao ser constantemente hostilizado pelos craques adversários que a sua equipa não impedia de brilharem. Mas, enquanto sofreu 71 golos e foi relegado à Ligue 2 em 2013/2014 o Ajaccio tinha alguém na baliza que progredia mentalmente e solidificava-se tecnica e competitivamente.

Partiu para o Mundial’2014 com a certeza de que assumiria a liderança da baliza Azteca e, contra as expectactivas, foi titular, salvando cada bola com o suor de 120 milhões de Mexicanos… mas foi o Mundo que ficou boquiaberto com a beleza da defesa a cabeceamento de Eto’o, também com a defesa de cabeça contra a Holanda, mas o que ficará para a memória de todos será a impressionante exibição contra o Brasil. Atajada atrás de atajada, Ochoa impediu os Brasileiros de marcarem na sua baliza por seis vezes e a defesa a cabeceamento de Neymar teve entrada directa na estória que o guardião construiu no Mundial’2014 enquanto a sua história fica marcada por uma constante… a marca da sua bota cravada na linha de golo.

OCHOA: Pisar a linha com consciência.Com a palma da mão ou em manchete, a sua impulsão lateral é notável para a sua baixa estatura, conotando-se por ser um guarda-redes que compensa a falta de poder de choque e lacunas na saída a cruzamentos aéreos com a velocidade de reacção e de antecipação no seu raio de acção. Ainda que destro, Ochoa defende metodicamente e em força com o braço esquerdo nos seus voos, especialmente quando o remate é feito para o seu lado direito.

De resistência física e mental duradoura, Memo faz dos reflexos - felinos e velozes - uma das suas melhores qualidades, mas a sua distinção neste campo característico é mais notável no um para um, tornando o “saber parar” antes de tomar a decisão a sua distinção para outros guardiões nesta situação.

Contudo, a sua estatura (1,83m) é considerada baixa para o Futebol Moderno e o facto de não ter critério na distribuição de bola a longas distâncias, aliadas à falta de qualidade técnica com os pés, mesmo que não comprometa, faz dele um guarda-redes que não se enquadra em equipas que joguem em pressão alta ou que entreguem parte da primeira fase da construção de jogo ao seu número 1.

Da permanência em 2012 no Ajaccio, rejeitando a mudança para Sevilha, ao pós-Mundial’2014, quando ignorou convites de clubes de grande nomeada para assinar pelo Málaga, Ochoa sabe pisar a linha, mas melhor que isso, entende como a deve calcar e em que palcos poderá crescer com a mesma regularidade que o fez em França e traçar outro destino à sua carreira, com a lucidez marcada na sua assinatura.

- Roberto Rivelino
O Mundo dos Guarda-Redes.