Oitavos-final: O Euro a “duas velocidades”  

25 de Junho de 2016

A primeira fase ainda davam para colocar “máscaras” no jogo. Os oitavos-final coloca, por fim, as equipas perante a sua verdade. Sem hipóteses de fuga.

Olhamos os oito jogos e é difícil imaginar as seleções que no inicio rotulamos de “sonhadoras” a crescer para além deste limite. As chaves que se formaram rumo até à Final é uma fina ironia futebolística. Os monstros caíram todos dum lado (Alemanha, França, Espanha, Itália, Inglaterra...) e do outro uma casta de seleções sem o mesmo porte (Portugal, Croácia e Bélgica, são a nata dessa chamada “segunda linha”).

Espanha-Itália coloca frente a frente os dois estilos mais opostos deste Euro. Ambos pertencem ao “mundo latino” mas entre o modelo de posse e toque apoiado da Espanha da defesa subida e o modelo de linhas mais baixas, fechando-se atrás da linha da bola, pressionando no centro e esticando a profundidade para atacar, existe um abismo a separar os dois conceitos de futebol. Saber quem ganha é saber responder a uma pergunta: vai impor-se o controlo da bola (Espanha) ou o controlo dos espaços (Itália)?

Não foi uma primeira fase de inovações tácticas. Também não se esperava isso, mas nenhuma das potências expressou o seu melhor futebol. Olhamos para elas mais com duvidas do que com certezas. a Alemanha irá manter o “falso 9” Gotze o meter o “9 verdadeiro” Mario Gomez. Mais do que procurar a resposta no que joga melhor (Gotze é um tecnicista, Gomes é um “tanque”) deve-se procurar antes em qual faz jogar melhor a... equipa. Os segundos-avançados Draxler-Ozil-Muller necessitam mais de um 9 referência que arraste marcações para lhe abrirem espaços. De todos, porém, o jogador que pode cresce mais para marcar a diferença imprevisível no jogo é Draxler.

A França encontrou em Payet um “playmaker” quase puro nº10 ou vagabundo criativo-definidor que não acredito estivesse à espera de ter nesta dimensão. O crescimento de Pogba depende de lhe libertar as marras e passar a subir mais desde trás, mas o caso Griezmann é mais complexo tal a forma como Deschamps insiste em que ele jogue tão no centro (onde já está Giroud, nº9 clássico, que não se devia). Em qualquer ponto, os maiores “monstros” têm problemas.

A quebra do “bloco de leste”

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O fracasso do bloco de leste, Rússia e Ucrânia e, até, no plano histórico estilístico da República Checa, não representa uma quebra meramente conjuntural mas tem razões mais profundas naquilo que identifico como uma quebra estrutural do futebol de leste. Estilo e nível competitivo. O tradicional futebol de leste chegou ao “fim da história” e tirando casos mais circunstâncias em que reúne bons jogadores inspirados ao mesmo tempo no onze, não se vislumbram nem os traços colectivas de jogo rápido apoiado do passado nem uma nova identidade capaz de suportar um renascimento de qualidade sustentada de jogo.

A Rússia foi, neste ponto, o maior fracasso deste Euro. Da Ucrânia, esperava mais, pelo talento de dois craques (Yarmolenko-Konoplyanka) que não apareceram quando era preciso, mas nela ainda se detectam alguns valores para despontar que podem ser a base de uma nova geração mais sedutora: os médios Kovalenko e Zinchenko (tem de se encontrar a melhor formula de jogarem juntos)

Só através desta união entre ideia de jogo e talentos especializados em posições-chave se pode construir um “novo futebol” ou sair de uma crise existencial em que o antigo caiu. É este o dilema (e crise) do bloco de leste.