Olhar ao mesmo tempo jogo e adversário

02 de Abril de 2016

Uma bola ao poste no primeiro minuto pode acontecer por acaso mas lances desses, no inicio, podem impor respeito no jogo. Esse do Braga na Luz (cabeceamento de Wilson Eduardo) era uma afirmação de personalidade. Pouco depois, a segunda (Rafa falhou isolado). O Benfica de Rui Vitória entrara, porém, mais uma vez com o pés tácticos bem assentes na terra. Por isso, nessa altura, não quis logo reagir (atacar de impulso e desequilibra-se mais) e procurou no jogo pelas suas referencias de posicionamento.
Era um duelo de “4x4x2 contra 4x4x2” mas com o Braga a meter mais facilmente os alas no jogo/espaço interior. Nesse contexto, cedo se percebeu que seria jogo para o “terceiro médio” do Benfica ter de aparecer nesse “território de batalha”. Um apelo ao “soldado” Pizzi para se associar ás subidas de Renato Sanches e deambulações de Jonas. O jogador sentiu isso (como sentindo o apelo do modelo) e surgiu naturalmente nessa missão espacial. E como muda a equipa com isso.
Não sei se até que ponto as tais boas entradas podem provocar “excesso de confiança” na equipa que as promove. O maior perigo então é esse excesso surgir no inicio de construção onde a “exposição ao erro” se traduz por vezes a sair demasiado com o nariz no ar. O olfacto de Gaitan (a recuperar) e Mitroglou (a marcar) arrancou esse erro a uma saída bracarense demasiado insolente com bola no pé para quem estava sob pressão atrás.
Um “golo psicológico” com “transfer” estabilizador no bater do coração táctico da equipa encarnada. Este Benfica não joga com as camisolas. Joga pelos jogadores que as levam. Esta equipa sabe que tem de crescer por si própria em cada jogo, olhando sempre primeiro para cada adversário que defronta. Sabe conviver com a sua realidade e a ansiedade que uma entrada destas no jogo poderia provocar.
O Braga não percebia o que tinha feito de tão errado para, de repente, ficar a perder por 3-0 depois daquele inicio. No fundo, tinha pura e simplesmente esquecido o adversário que tinha pela frente. Ou melhor, as coberturas dos movimentos habituais dos jogadores-chave encarnados.
No resto, nessa parte que decidiu o jogo, fica a imagem do olhar de Jonas na hora do penalty. Sem tirar os olhos da baliza e para onde ia cair Mateus. A metáfora perfeita do que faz hoje a frenato sanchesorça deste Benfica nos jogos: nunca deixar de olhar para si e para o adversário simultaneamente.

Iguais mas com diferenças

Renato Sanches é um jogador, naturalmente, em fase de crescimento. A chamada “maturação da formação”. Como Ruben Neves. Ambos precisam que o deixem crescer. Ambos criam, porém, a ilusão de que já “nasceram crescidos”, adultos e que até já estão em campo para “ensinar” o resto da equipa. Pela qualidade que têm muitas vezes até parece mas as coisas não funcionam assim. A cultura de jogo é algo que vem das bases mas que tem depois um processo de maturação (que mescla a “rua” com o relvado, no sentido do fim da chamada idade de inocência). É importante que joguem com a idade que têm.
O que faz admirar mais estes jogadores neste processo talvez demasiado acelerado é jogarem na posição (ou no espaço, nº6 ou nº8) tacticamente mais importante no futebol moderno. Aquela que pede visão de inicio de construção de jogo e sentido posicional de equilíbrio defensivo.
As pausas que Renato precisa lapidar na sua leitura essencialmente “eléctrica” para assim pensar melhor o jogo. O passe vertical ou a condução mais agressiva que Ruben Neves para assim dar ouras faces à sua circulação de jogo. Crescem nesta fase em sistemas diferentes.
Renato fixou-se no onze titular e a equipa recebeu-o tão bem porque precisava muito de alguém assim. Ruben Neves não se fixou no onze titular porque a mecanização da equipa (e a tal rotatividade) não lhe deram essa moldura táctica estável. Está agora preso na sua evolução entre o 6 e o 8 e entretanto apareceu o pilar Danilo. É imperioso que o FC Porto tenha um plano especifico de crescimento posicional para ele.