Onde está o “coração” das equipas?

18 de Junho de 2016

 

Já se sabe que o meio-campo é o sector mais importante para a personalidade duma equipa, mas o que este Europeu está a revelar é a dificuldade de muitas das principais equipas no “jogo interior”. Falham na interligação entre pressionar e depois entrar no ataque por esse espaço.

A Alemanha é a única que não tem esses dilemas. O 4x4x2 de Portugal, com Moutinho em debate, caiu nesse fosso de análise. A Croácia e a Eslováquia fizeram boas exibições (contra a Turquia do talento desordenado e a Rússia sem identidade) porque encontraram a fórmula certa para esse corredor de trás para a frente.

O caso mais perturbador é o da França. Contra a Albânia, inverteu o triângulo e montou um duplo pivot-defensivo (Kanté-Matuidi) atrás de um 10 puro, Payet (que passara da faixa para o centro). Incapaz de, assim, ganhar profundidade no “jogo interior”, voltou na segunda parte ao triângulo original, com um pivot (Kanté) e Pogba-Matuidi como interiores subidos. Nessa equação, Payet desapareceu do centro e passou a jogar “escondido” a partir da faixa (tirando Martial).

Ou seja, para resolver um problema de incapacidade de construção ofensiva, abdicou da largura pura do 4x3x3 para dar mais “peso” nas entradas desde trás (com o músculo Matuidi-Pogba) e nas diagonais, da faixa para o centro, de Payet. Mesmo contra a fechada Albânia, Deschamps viu a origem do problema e forma de o resolver no corredor central.

Nada disto, porém, pode ter uma leitura tão simplista em cima dos jogadores. Quando dois talentos como Pogba e Griezmann não rendem, a responsabilidade não pode ser só deles. O próprio treinador também tem de fazer uma autoanálise para perceber se a razão para isso não está antes naquilo que ele lhes pediu (e posições que meteu no jogo). Era o que tinha sucedido contra a Roménia.

Tirá-los do onze inicial no jogo seguinte e depois mete-los no seu decorrer (para resolver o jogo), revela o “nó táctico” que se deu na cabeça de Deschamps. O melhor futebol desta seleção francesa está hoje preso nas suas dúvidas. Na globalidade, este Euro continua sem relacionar bem as faixas com as zonas interiores. A “pequena sociedade” que obrigatoriamente todas as equipas têm.

sturridge walles

O “mundo” de Sturridge

Mudar um jogo ao intervalo pode ser produto de alterações colectivas ou da entrada de uma individualidade desequilibradora. Mais raro é quando é através de um jogador que muda a forma da equipa pensar e tomar decisões na zona de definição. Ou seja, passar a existir alguém a tomar melhores opções (primeiro de colocação para receber a bola, quase parecendo que há mais espaços vazios, depois na recepção, forma de olhar para o jogo, para as duas equipas – a sua e adversária- e, depois, então sim, passar, arrancar ou rematar). Tudo isto foi Sturridge a passear por entre a “trincheira” de Gales durante 90 minutos. Recebia a bola em cima de quase toda a equipa galesa em bloco baixo e, vindo da direita, tornava cada jogada numa “sala de invenções”. O golo que cria e marca já nos descontos, tem tudo o que o bom futebol de um avançado que fabrica os seus próprios golos deve ter.

Este jogador é muito mais craque do que imaginam. É dos maiores talentos que o futebol inglês gerou nas últimas décadas. Quando as lesões não o “prendem”, faz do jogo o que quer. É o admirável mundo inglês de Sturridge, a melhor Inglaterra com “perfume de técnica”.