Onde estão as estrelas?

09 de Dezembro de 2011

Onde estão as estrelas

Existe Messi e existe o futebol argentino. Dois mundos diferentes. Entidades totalmente autónomas. O primeiro, ser individual estratosférico, muito acima da realidade colectiva. A liga gaúcha espelha hoje sobretudo a fuga das suas principais estrelas para a Europa.

Na La Bombonera, o patriarca do toque, Riquelme, escondendo a bola debaixo da sola das suas chuteiras como dizendo “este jogo é meu!”, continua a ser a principal referência, mas o onze de Falconi, o técnico com o rosto que parece esculpido à navalha, tem vivido muitos jogos da época sem ele, devido á sua cada vez menor intensidade físico-competitiva.

O Boca está a um ponto de reconquistar o título de campeão. A equipa solidificou-se quase com duas faces em campo, num 4x3x1x2 que ganhou consistência com três volantes fortes à frente da defesa, todos com estilos diferentes. Primeira âncora: Somoza, o pilar de dois triângulos (o da defesa, à frente dos centrais Schiavi-Insaurralde: e o do meio-campo, atrás de Rivero-Ervitti). É na meia-cancha que tudo se decide em termos de controlo de jogo (táctica e ritmos). Enquanto Somoza fica na marcação/equilíbrio defensivo, Rivero solta-se na direita quando a equipa tem a bola e depois fecha no centro quando a perde, Na meia-esquerda, Ervitti, mais criativo, é o tipo jogador-formiga de condução de bola.

Na segunda linha do meio-campo, sem Riquelme, no jogo decisivo da época (contra o Racing, então no 2º lugar) surgiu Chaves solto a organizar. Rompe desde trás e descobre linhas de passe, também rendendo descaído para a faixa. No ataque, a nº9, pode surgir Viatri ou a revelação Blandi. Ao lado, Mouche, muito móvel, canhoto, belo jogador mas com a tendência a cair e atacar sempre por um flanco. Vejo-o o jogar e acho que o que ele quer mesmo é ser extremo. A outra opção, Cvitanchi, é mais culto como segundo avançado.

É um modelo de jogo essencialmente curto, por vezes lento e que acelera sobretudo em iniciativas individuais, sobretudo com Mouche. É o estilo que domina o futebol argentino no seu conjunto.

O Racing de Simeone é outro caso. Um onze em 4x2x3x1 que joga mais com as circunstâncias do jogo em vez de procurar uma identidade clara. Por isso, o médio Toranzo, lutador e criativo, ficou no banco nesse jogo decisivo, para unir mais as linhas. Tem um craque, o esguio colombiano Moreno, canhoto, mas muito lento em todos os processos. Joga a 10 ou escondido na faixa, com passes de génio. O elemento mais agressivo é Hauche, servindo o nº9 Gutierrez, enquanto atrás, dois volantes fortes (Jacob-Pelletieri) seguram a equipa. Nota positiva para o laterais, Pillud, à direita, e Licht, à esquerda, defendem e atacam bem.

Não existe, portanto, no meio de tudo isto, nenhuma sombra de Messi. É o futebol argentino mais real. Correr atrás da bola mais do que a fazer correr. Quem, em campo, conseguir fazer mais essa excepção, ganha. É o caso do Boca de Falconi.

Vendo jogar o River Plate

Onde estão as estrelasEsta semana, vi o jogo do River, na II Divisão argentina. Depois de perder, em casa, com Aldosivi (1-2) e Atlético Tucumán (0-2), um clássico com outro histórico submerso na chamada Nacional B, o Rosário Central. O estádio Monumental transformado quase numa casa assombrada. Não acredito que, entre os 40 mil das bancadas, os fantasmas dos craques do passado tenham aparecido para ver o jogo.

O actual River de Almeyda é, porém, uma equipa que cada vez aprende a jogar no estilo combativo da II Divisão. Almeyda, o médio-símbolo que passou para treinador-alma, montou uma defesa experiente (Cirigliano é uma bela revelação a seguir) e um meio-campo que «trinca a língua» a cada bola/adversário que passa perto: é a dupla Sanchez-Aguirre, defendem e atacam.

Na frente, o pibe que empolga é Ocampos, 17 anitos. Mas, calma! Joga muito, mas mete muito a cabeça na relva e desata a fintar. Acredita mais em si do que na equipa. Ás vezes corre bem, noutras os experientes Cavenaghi (El Torito sempre pronto para rematar) e El Chori Dominguez (em belo momento de forma) ficam a pedir o passe.
O jogo acabou 1-1. O River segue em 2ºlugar na classificação atrás do Instituto. Acredito que vai subir, mas cada jogo seu, nesta fase, é quase uma sessão de psicanálise futebolística para os seus adeptos que, sem o bom fútbol do passado, parecem ainda não acreditar no que vêem.

O futebol de Gutierrez

Onde estão as estrelasTeófilo Gutierrez é o ponta-de-lança do Racing e, muitas vezes, da selecção da Colômbia. Por isso, fala-se muito dele a propósito de Falcão. Se o pode substituir, se tem o mesmo valor, etc. Como ideia inicial digo que Gutierrez tem aquilo que quase todos os bons nº9 latino-americanos possuem: jogam muito sem bola, de costas para a baliza. Um apoio fundamental porque, assim, também faz jogar a equipa, servindo médios que entram de trás ou vindo buscar a bola a zonas recuadas quando joga demasiado isolado na frente, como lhe sucede muitas vezes (selecção e Racing).

Não é, no entanto, muito rápido, apenas em espaços curtos, na área, onde é muito oportuno. No resto, não lhe metam, por princípio, bolas em profundidade. Não é 9 para contra-ataque, é 9 de ataque continuado. Joga em tabelas e desmarca-se curto, mesmo quando marcado em cima e remata com frieza. Tem técnica, mas sem acelerar muito, só que toca/decide rápido o que fazer, pelo que a sua melhor velocidade está mesmo na cabeça e no remate.

Está com 26 anos. Depois de quase ignorado no Trabzonspor, gostava de o ver voltar ao cenário europeu.