Onde nasce a “orgulho”?

21 de Junho de 2016

Muitas vezes, quando as coisas se transformam tão radicalmente, perguntámos, intrigados, onde estava escondida até esse momento aquela equipa?

Antes do jogo, o onze turco, deprimido e sufocado por criticas, parecia condenado. Fatih Terim, “imperador e pai” (que tanto dá um sermão com o sobrolho mais carregado como se abraça sorridente a um jogador) de todo o futebol turco das ultimas décadas, apelara ao orgulho dos jogadores para o último jogo com a República Checa.

Era os checos a quem bastava ganhar para serem apurados mas em campo o relvado tornou-se subitamente num inferno turco, onde irrompeu uma “nova equipa”, na alma e na forma de jogar.

Um mudança que começou no explodir de um jogador que parece de desenho animados, extremo serpenteado em velocidade. Emre Mor, 18 anos, 1,67m de carne e osso a voar baixinho atrás duma bola, passando todos calções e chuteiras adversários que lhe surjam no caminho, para, de repente, mostrar que é mesmo “jogador a sério” e não só “rato atómico”. É quando faz a pausa no momento cetro e (travando ou abrandado) levanta a cabeça, olha e toma a opção certa de voltar a arrancar, fintar ou, como neste caso fazer um passe mortal atrasado para o ponta-de-lança finalizar “encostando”. A formalidade do golo foi cumprida por Burak Yalmaz, a visão do futuro do futebol turco fora toda dada por Mor.

A partir desse momento, os checos perderam o controlo emocional e táctico do jogo. Do outro lado, a Turquia tinha outro extremo a querer voar, Volkan Sen e, tirando os craques Calhanoglu e Ozyakup do onze inicial, o futebol a passo de Arda Turan, jogando com classe quase dos velhos nº10 as mãos nos bolsos, voltar a fazer sentido para marcar o contraste com a velocidade dos ratos Mor e Sen (ficando sempre atrás, no equilíbrio, Selçuk Inan e Ozan Tufan).

Fariam o 2-0 e ninguém até agora festejara os golos com tanta alma como os turcos, como se fosse um grito de revolta contra os destino e as criticas, caindo em deliro. num “abraço-montanha” em cima do “pai e imperador”, com todo o banco a sufocar Fatih Terim.

Não sei qual o futuro desta Turquia, mas foi neste jogo que vimos verdadeiramente neste Europeu a face mais emocional do futebol. Na táctica e na raça.

As “cicatrizes do futebol”

O ultimo jogo do onze checo foi mais do que apenas uma derrota que ditou a eliminação. Apesar do bom futebol de posse e passe (gerindo os ritmos e pegando atrás ou à frente) do médio táctico-rotativo Darida, as imagens que ficam são outras, já o jogo terminado: o olhar perdido de Cech, estático, contemplando o “horizonte da baliza”, a tristeza de Rosicky que já não conseguira jogar esse último jogo, e as lágrimas que Plasil limpava com a camisola após agradecer os aplausos dos devotos adeptos. Nestas imagens de três símbolos como se despedia a nata da geração que marcou futebol checo nos últimos anos. Três jogadores que lutaram contra o destino neste Euro que parecia poder ser maior para eles.

No futebol, há momentos que me tocam mais. Quando se perfura o interior de jogadores que quase veteranos-mitos deixam as suas emoções se expressarem como condensando num momento toda uma careira que fica para trás, é o mais arrepiante. No fundo, naqueles momentos, Cech e Plasil sentiam e olhavam para a “alma do futebol”. E partiam. Amanha, o mundo continuará rodar igualmente sem eles, mas as suas “cicatrizes de futebol” serão eternas.