Onde pode mudar (acrescentar) Peseiro?

22 de Janeiro de 2016

Quando um treinador chega a um clube, espera-se que traga algo de novo. A expectativa cresce quando essa equipa vem de um mau período de exibições e resultados. Peseiro é recebido assim no FC Porto, a “solução” depois de ser mandado embora o “problema” Lopetegui.
É evidente que Peseiro vai criar uma ruptura com vários procedimentos e criar novas dinâmicas na forma de jogar, mas seja em que altura for, quando o tal novo treinador chega o principio para o seu plano de ação nunca poderá ser só esse. Muito menos a meio da época.
O princípio é ver o que, em função das suas ideias, pode aproveitar ideologicamente do anterior treinador para meter no seu modelo. Quanto mais rotinas poder aproveitar, melhor. A ruptura é mais para “efeito mediático” exterior. Em campo, tem de existir uma alteração sem criar uma ruptura que apague tudo o que foi feito.
E, na verdade, entre Lopetegui e Peseiro, há, na cultura de posse, alguns pontos de contacto ideológicos. A intensidade de jogo (e, noutro debate, treino) terá de ser maior, mas as linhas-macro da forma de jogar, construir jogo de trás para a frente, não é assim tão diferente.
Peseiro não é, por exemplo, Jardim. Que teria uma opção diferente de baixar o bloco e apostar nas saídas rápidas. Peseiro é um treinador diferente e se há aspecto que, penso, ele poderá aproveitar de Lopetegui, é o momento da transição defensiva. Dar-lhe as suas nuances do seu local preferencial de zona de pressão, afinar relação central-lateral (pós subidas nos timing de recuo deste) mas aguentar essa organização.
Onde tem de mudar é na vertente da dinâmica criativa coletiva ofensiva. Manter a largura mas diminuir o tempo em que se joga em... largura. Isto é, a circulação excessiva que dá tempo ao adversário de (também em largura) fechar os espaços que depois se têm mais dificuldade de reconhecer para furar.
A profundidade do jogo interior é outro factor chave. Penso, aliás, que foi por isso que Herrera passou a jogar mais, mas apenas num comportamento individual dentro dum problema modelar colectivo.
Outra questão é definir de forma clara como quer sair a jogar pelo pivot. Danilo, passe mais curto vertical ou lateralizado, ou Ruben Neves, saída em circulação mas rápida de reconhecimento do corredor variando flanco por onde sair. Podem jogar os dois juntos? Podem. O que não podem é jogar os dois ao... mesmo tempo. Parece igual mas é, no plano da dinâmica tática muito diferente.
Peseiro é um adepto da posse com linhas subidas e pressão alta. São boas ideias mas não pode chegar ao Porto e correr o risco de com isso perder as costas da organização/transição defensiva. Onde ele tem claramente de melhorar é na transição e organização ofensiva (metendo criatividade coletiva interligada de movimentos).
Ou seja, em vez de mudar, acrescentar o que falta. E já é muito.