Onze jogadores e uma bola

02 de Julho de 2012

PLANETA DO EUROPEU(23)

É tentador resumir tudo à bola que bate na barra e sai ou que bate no poste e entra. Portugal tinha o domínio físico sobre o jogo. Não conseguiu (nem arriscou) ter o domínio táctico sobre ele. Bastou-lhe a sensação de controlo. Sempre ilusória jogando contra a Espanha, mesmo que fisicamente esgotada e que, sentindo essa inferioridade atlética, refugiou-se na organização defensiva e nunca se desequilibrou quando viu que chegava sempre tarde á bola e a perdia mais rapidamente do que está habituada.

Portugal entrou para o prolongamento e ninguém ousou criticar Bento por só mexer verdadeiramente na dinâmica atacante da equipa a sete minutos do fim, metendo o agitador Varela (Hugo Almeida por Nelson Oliveira é posicional). E ninguém critica porque, pura e simplesmente, não existia no banco noutra solução visivelmente capaz. O grupo de 23 era apenas um número, não um conjunto de verdadeiras alternativas.

Esta seleção foram onze jogadores criados em cativeiro por Paulo Bento que reuniu os cacos em que a encontrou e inventou uma equipa para salvar o apuramento e disputar, com carácter, a Fase Final. Missão cumprida. Agora, pensemos o que existe para além disso.

Não vejo no cenário atual outros jogadores capazes de fazer um grupo de selecionáveis (os tais jogadores de elite) para além deste núcleo duro do Euro, com valor claro para entrar na seleção ao mais alto nível e faze-la crescer. Pensem e digam que outros jogadores serão alternativas válidas aos que jogaram. Carlos Martins que faltou? Bosingwa que se zangou com Bento? Nelson Oliveira vai crescer? Não vejo, sinceramente, onde está o futuro do futebol português. Portugal vive uma crise geracional de valores de top. Ronaldo é capaz de levar-nos para uma dimensão estratosférica e disfarçar muita coisa, mas o problema, de fundo e de base, permanece. Estrutural e criado ao longo de vários anos sem pensar o futuro.

Esta seleção desafiou os seus próprios limites e, mesmo perdendo a ida à Final nos penaltys, penso que os venceu e superou. A atual realidade do nosso futebol (seleção) não é a meia-final do Euro. Não se iludam com isso.

De Negredo a Pedro

Onze jogadores e uma bolaTenho dificuldade em perceber o que passará pela cabeça de um treinador para, de repente, apostar num jogador que antes nunca vira como solução. Sucedeu com Del Bosque ao meter Negredo (na tal posição 9 que parecia ir ficar vazia) a titular contra Portugal. A opção, claro, não resultou. Negredo não sabe jogar o jogo de passes curtos espanhol (trava essa construção) e, pior, com essa opção, perderam um médio para enfrentar o denso meio-campo português.

Melhor visão táctica teve, depois, ao interpretar o cansaço físico-táctico espanhol. Como não podia acelerar a construção, acelerou a condução com a entrada de dois alas/extremos: Pedro e Navas (saindo o construtor Xavi e o arquiteto das diagonais, Silva). Em vez de rapidez de troca de bola, rapidez de pernas. Portugal tirou todos os espaços ao tiki-taka espanhol, mas nunca conseguiu acelerar o seu processo de transição ofensiva ou meter mais imaginação nas jogadas.

Controlamos tudo o que era possível de forma notável. Não podemos é inventar mais do que a nossa mente e corpo nos permite. É mais um sonho português que fica a meio. Uma dia será.