OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS- Os nomes da revolução

04 de Novembro de 2000

Michel Platini

Com a sua classe, elegância e visão de jogo de pintor renascentista, sempre com a camisola fora dos calções, cultivando dentro do campo, o ar “blazé” de todos os grandes génios, expresso ora em livres em “folha seca”, ora em passes em profundidade capazes de meter a bola dentro da abertura de uma lata de cerveja, ele foi o líder incontestado de uma geração que, 26 anos depois, faria esquecer a remota casta de Kopa e Fontaine. Foram os chamados “anos Platini”, eterna referência de futebol dotado de elevada beleza estética, opção artística de uma geração de nº10, onde viveram, no mesmo onze em simultâneo, Tigana, Giresse e Fernandez, vencedores do Euro-84 e semifinalistas dos Mundiais 82 e 86. Apesar da vitória de 98, “la belle seleccion” de 82 permanecerá para sempre na memória romântica de todos como referência de culto quando se falar em bom futebol.OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revolução

Platini pendurou as chuteiras em 87, depois de se tornar um mito Juventus, por já não se sentir com forças para voltar a ser o nº1, o único lugar em que, face ao prestigio alcançado, fazia sentido estar. 18 meses depois, porém, surge á frente da selecção francesa que órfã em campo da sua geração mágica perdera o brilho anterior. Com ele no “banco”, recuperou o respeito internacional, mas o seu carisma levou-o a vestir fato e gravata, assumindo o cargo de co-presidente da Organização do Mundial-98. Homem de confiança de Blater, Platini é hoje uma figura influente nos meandros da FIFA e as suas opiniões são sempre tidas em conta. Do futebol francês só poderá ouvir duas palavras” Merci Beaucoup Monsieur Platini!”

Claude Bez / Bernard Tapie

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoApesar de todas as confusões, em certo momento da história, estes homens foram, mesmo não olhando a meios, os grandes catalisadores da ambição francesa. Mas, se é verdade que foram eles que levaram o Bordeaux e o Marselha ás suas maiores glórias, também foram eles que os arrastaram para a maior de todas as vergonhas. Quanto mais subiram, de mais alto foi a queda. Depois dos títulos as profundezas da IIª Divisão. No entanto, nos tempos de bonança, aparente já se vê, os dois clubes, repletos de estrelas, recolocaram, depois dos distantes feitos de Reims e St.Etiene, o futebol francês entre os grandes da Europa. No final, ficou o legado da loucura, momentos inesquecíveis, vividos, para o bem e para o mal, sob um céu coberto de estrelas, ora no Parc Lescure, ora na ventania do Vélodrome.

De Hidalgo a Jacquet

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoApesar do titulo mundial, Aimê Jacquet, permanecerá, para sempre, um mal amado entre os adeptos franceses que nunca gostaram da sua postura arrogante, que o levava a desprezar todas as criticas que lhe eram feitas. O seu ar de “professor de matemática” e o discurso pouco fluente, colocaram-no permanentemente debaixo de fogo, tacticamente acusado de defensivo. Sufocado por tantos ataques explodiu com a Taça do Mundo nas mãos, quando afirmou que “nunca na vida perdoarei aqueles que tanto me criticaram!”. O desprezo dos adeptos gauleses pela figura de Jacquet tem sobretudo a ver com o carisma que ainda hoje tem Michel Hidalgo, o homem que tendo tomado conta da selecção em 76, após a crise dos anos 60 e 70, formou a fantástica “geração Platini”. Com Hidalgo, a França passou a ser um refúgio do bom futebol. A derrota romântica de Sevilha em 82, frente á RFA, e o triunfo no Euro-84 feito á base de um jogo ofensivo seduziu os amantes do futebol arte. Entre o Hidalgo e Jacquet, um mundo de contrastes invadiu o estilo do futebol francês. Mudaram-se os jogadores, mudaram-se as tácticas. No final, Jacquet terá sempre o argumento dos resultados. O único que conta para os pragmáticos do futebol.

Arséne Wenger

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoO seu estilo inspirou a nova vaga de treinadores franceses. Com fama de intelectual, Wenger é visto mais como um professor do que como um simples treinador. Não inovou nada em termos tácticos, mas tornou-se famoso sobretudo pela força mental e física que transmite ás suas equipas. Só assim se entende o seu fulgurante triunfo no hermético futebol inglês. Com Wenger, iniciou-se uma nova geração de treinadores gauleses, sucessores da patriacal era de Guy Roux e Seaudeau. Estes homens tinham porém a mais valia de terem saídos todos dos centros de formação dos clubes, espécie de estágio técnico para o futebol profissional. A cultura Wenger herdou o seu saber, adicionou-lhe o culto imagem, incutiu-lhe o “savoir-faire” indispensável para lidar com os “media” e gerou um novo estilo que seduziu os teóricos do futebol. Na senda de Wenger, hoje, depois de uma passagem de sucesso pelo Japão, credenciado treinador do Arsenal, surgiram homens como Tigana, Fernandez e Giresse, entre outros. Em Inglaterra combinou o seu estilo professoral com o cargo de “manager”, nos clubes britânicos um gestor de todo o futebol do clube. O seu sucesso inspirou o Liverpool que na ânsia de repetir a fórmula de sucesso dos “gunners” contratou, outro françês, Houlier, para gerir o seu “bootroom”. O éxito, porém, não foi o mesmo.

Eric Cantona

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoFoi, talvez, depois de Maradona, o jogador mais controverso do mundo do futebol nos últimos 20 anos. Incompreendido em França, onde passou por muitos clubes, perdeu a cabeça definitivamente em 88, ao insultar o então seleccionador Henri Michel. Quando no inicio dos anos 90 rumou a Inglatera para treinar á experiência no Sheffield Wednesday muitos insinuavam estar a sua carreira terminada. Poucos meses antes deixara em fúria o Marselha após, em pleno jogo, atirar a camisola contra a cara do técnico Gili que então o substituíra.

Em Inglaterra porém encontraria o seu habitat ideal. Embora rejeitado no “clube dos mochos”, ingressou no Leeds e aí iniciou uma carreira que fez dele um verdadeiro ícone. Em Manchester, encontraria em Alex Fergusson, o treinador ideal que lapidou a sua rebeldia. Mesmo quando foi suspenso por 8 meses após agredir um adepto, o escocês continuou a confiar nele e no primeiro dia a seguir ao fim da suspensão ofereceu-lhe a braçadeira de capitão. Apesar de as suas camisolas se passarem a vender aos milhares com as palavras “Deus” e “King” estampadas por baixo do seu famoso nº7, o pragmático seleccionador Aimê Jacquet virou-lhe as costas e, temendo o seu carácter rebelde, fechou-lhe as portas da selecção. Perante esta situação, em 97, com 31 anos decidiu abandonar o futebol “por já não se sentir feliz dentro de um relvado”. Refugiou-se no cinema na senda do seu sonho de ser actor.

Simbolicamente, numa das suas primeiras aparições, no histórico filme “Elisabeth”, faz o papel de um embaixador francês no reino da Grã-Bretanha... Ao lado de Cantona, outro grande talento do futebol francês, viveu á margem das suas grandes conquistas: David Ginola. Também ele encontrou abrigo no puro futebol inglês, onde foi eleito, em 99, o melhor jogador do ano. Ao contrário de Cantona, porém, não calou a sua revolta perante a indiferença gaulesa em relação ás suas proezas mágicas.

Michel Denisot

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoFoi a face mais visível do projecto que no inicio dos nos 90 ligou o Canal + de Charles Bietry, fundado em 84, ao Paris St.Germain. A partir desse momento os dinheiros da televisão irromperam com toda a força no futebol francês, injectaram-lhe milhões de francos e tornaram-no um produto rentável que passou a atrair grandes investimentos. Tudo começou em 88 quando J.C.Darmon, director de promoção da FFF, vendeu os direitos de imagem da selecção de França ao Canal +. A privatização da TF1 em 1987 intensificou a concorrência e os clubes passaram a ter grandes receitas televisivas. Nesse contexto o PSG construiu uma grande equipa, dirigida por Michel Denisot, jornalista nomeado administrador delegado do clube. Foi ele que foi buscar Artur Jorge, o “construtor” nas palavras de Denisot, em 1991. Em 7 anos de “gestão Denisot”, de 1991 a 1998, data da sua saída, o PSG conquistou 1 Campeonato, 2 Taças de França, 2 Taças da Liga e 1 Taça das Taças, tudo imbuído de um espirito onde ganhar significava, antes do mais, jogar bem e conquitar audiências.

Fernand Sastre

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoTodas as revoluções tem os seus homens que vivem na sombra. Quase sempre longe das primeiras páginas e dos microfones, mas nem por isso menos importantes. Antes pelo contrário, em muitos dos casos eles são os verdadeiros “pensadores” da mudança. No futebol francês, foi o caso do malogrado Fernad Sastre, presidente da FFF de 73 até 84, ano de vitória no Europeu, consagração máxima do “seu” treinador, Hidalgo. Quando em 89, perante o descrédito que, face á guerra Bez-Tapie e á ausência do Mundial 90, invadiu todo o futebol francês, Roger Bambuck, ministro do Desporto á época, solicitou a Satre, então presidente honorário da FFF, que toma-se as rédeas do processo e sabendo do seu saber e espirito de sacrifício deu-lhe carta branca para tomas as medidas necessárias á remodelação. O Dossier-Sastre mudaria a face da Gália futebolística. Passa a existir um controlo intenso ás finanças do clubes, relança a política de formação, reduz a Liga para 18 clubes e ganha para a França o Mundial-98, sendo nomeado, junto com Platini, co-presidente do comité de organização. Em surdina, porém a doença já começara a minar o seu fulgor.

Aos poucos, começa a aparecer cada vez menos. No inicio de 1998, a situação agudiza-se e o Sastre acaba por falecer três dias após o inicio do seu Mundial. As lágrimas de Platini durante o minuto de silêncio que precedeu o Espanha-Nigéria de 14 Junho de 98, foram a sua última homenagem ao homem que, longe dos projectores, mudou a face do futebol francês.

Zinedine Zidane

OS 20 ANOS QUE MUDARAM O FUTEBOL FRANCÊS Os nomes da revoluçãoO Presidente Jacques Chirac considerou-o o “símbolo perfeito da integração racial existente na sociedade francesa”. Apesar do aproveitamento político da afirmação do Presidente francês, Zidane, o menino pobre filho de imigrantes argelinos, do bairro da La Castellane, tornou-se, embora longe do fulgor e da aura de Platini, no líder de uma geração que muitos definiram como “As Cores Unidas da França” por reunir genes futebolísticos de vários continentes, originários de antigas colónias ou territórios franceses. A sua elegância lenta faz lembrar um jogador de outros tempos, o ultimo nº10 á moda antiga. Os seus dribles parecem marcar outro ritmo de jogo. Com 27 anos, espera com a sua classe manter a “selecção do galo” no topo do futebol mundial durante mais alguns anos. Para sempre na memória da pátria gaulesa os seus dois golos ao Brasil na final do Mundial-98, passaporte para a eternidade. Tecnicamente evoluído ele é, também, um símbolo do sucesso dos centro de formação franceses. Foi produto da escola da AS Cannes, vingou no Bordeaux e, na senda de Platini também rumou para a Juventus.