Os «Caça-fantasmas»

02 de Abril de 2008

Os «Caça-fantasmas»

Falando sobre a suprema chave da vitória, Marcelo Lippi, treinador italiano campeão do mundo, dizia que, em campo “o segredo é agarrar o momento em que mais se sente a possibilidade de ganhar”. É uma ideia que se aplica sobretudo à epopeia de virar jogos que se estão a perder. Ou de inverter estados de espírito, quando uma equipa cai na chamada crise de confiança. As finais, como os jogos mais decisivos do campeonato, são a altura ideal para avaliar esta situação. Mais do que os problemas tácticos, Benfica e Sporting parecem viver numa “casa assombrada” durante 90 minutos. Paulo Bento fala da incapacidade de treinar o lado emocional, Camacho retira-se dizendo-se incapaz de motivar os jogadores.

É comum, muitas vezes, no final dos jogos, dizer-se que a equipa “não aguentou a pressão”. É o jogo para lá das tácticas. Nesses momentos de tensão máxima, a solução tem de estar no relvado. São os chamados jogadores “caça-fantasmas”.

Quando se fala em momento de forma, fala-se de um cocktail de vários factores. O físico, o táctico e o mental. Nada disto existe isolado, futebolisticamente falando. Eles formam, no conjunto, a chamada “forma desportiva”. Pensar em apenas um isoladamente, é um passo decisivo para não entender o jogador. Para não entender o jogo. Nessa alturas, muitas vezes é mais interessante observar jogadores do que os jogos ou as equipas no seu conjunto. Pressente-se em cada jogador do Sporting e do Benfica, no esforço e nas dúvidas estampadas no rosto e no corpo, os “fantasmas” que hoje convivem com eles em campo.

Simão ou Nani era dois bons “caça-fantasmas”. Rui Costa e Moutinho também tinham perfil para isso. O facto de não o conseguirem revela que o problema é mais profundo. Lá entra outro factor. A táctica, outra vez.

Frente ao Setúbal, o Sporting entrou com Liedson e Vukcevic apoiados por Moutinho, Izmailov e Romagnoli. Cinco homens a pensar atacar. Mesmo assim, não criou uma única oportunidade de golo em todo o jogo. Contra o Nacional, fez quatro golos com os mesmos jogadores. Uma prova clara de como a raiz do problema é essencialmente táctica. Ou melhor, de estratégia táctica. Porque o Setúbal defendeu noutro processos (montou um duplo pivot Sandro-Chaves e aprisionou Vukcevic quando esteve recuava para a entrada da área). Exigia-se, consequentemente, outra mobilidade (outra estratégia) ofensiva leonina, mas equipa não sabe responder às diferentes exigências estratégicas que cada jogo exige. Dando respostas (entenda-se forma de jogar) iguais, a problemas (entenda-se adversários) diferentes, transforma cada jogo num labirinto para o qual não encontra saída.

Ao lado, o Guimarães de Cajuda vive noutra “casa de espíritos”. Caça bem os seus fantasmas. Sente-se isso quando Geromel corta com firmeza serena, quando Flávio Meireles salta para ganhar ressaltos, quando Alain ou Ghilas serpenteiam por entre os defesas adversários. Tem o lado mental controlado e isso pode fazer a diferença nesta fase final.

Durante os jogos do Benfica, um dos jogadores que transmite essa sensação é Leo. Será pela velocidade com que corre. Nessas alturas a equipa parece “voar baixinho”. Falta, depois, o outro lado da jogada. O cruzamento táctico e mental.

Uma boa equipa é aquela que cria uma cumplicidade entre si. Sem receio de olhar-se ao espelho. Porque os fantasmas nunca poderão ser dominados por completo. Podem é ser educados. Os tácticos e os mentais.