Os “camaleões” podem ter identidade

15 de Março de 2017

1.

Nenhum tem uma postura de confronto como estilo, mas ambos transmitem uma imagem de liderança e personalidade no comando das equipas. Ia chamar-lhe “liderança tranquila”, mas é mais do que isso. Penso em Leonardo Jardim e Marco Silva, cada qual no seu nível, estão a deixar marcas na Europa do futebol esta época, no Mónaco (Liga francesa e Champions) e no Hull (renascido das catacumbas da Premier League). Ambos têm, no perfil e forma de jogar das suas equipas, marcas claras da escola portuguesa. Sim, porque esta existe e embora possam jogar com sistemas diferentes (e menos ao ataque ou mais à defesa), ela tem “impressão digital” própria.

Já defendi uma vez o sucesso do treinador português por resultar essencialmente de ser um “treinador de estratégia” (que potencia bem as suas equipas e estuda os adversários, pontos fortes e fracos, melhor do que todos os outros), mas essa definição é redutora.

Porque antes desse lado de estratégia que se aplica essencialmente a cada jogo em particular, existe uma forma de preparar as suas equipas para elas poderem jogar de formas diferentes, sem que com isso lhes retire identidade. Isto é, podem mudar ou não de sistema, num jogo jogar mais atrás e noutro mais subido, que os jogadores sabem... “a que é que jogam” (isto é, qual a proposta).

Não confundem quando devem jogar apoiado ou quando devem jogar em profundidade. Não confundem quando devem reduzir o ritmo e circular de quando devem aumentar a velocidade e esticar mais. Em níveis diferentes (jogando para o titulo ou para não descer) Mónaco e Hull fazem isso.

2.

O Mónaco de Jardim tem um 4x4x2 estabilizado que define uma zona de pressão central (Bakayoko-Fabinho), que também pode ser de transição, mas sabe que não é no “jogo interior” que vai fazer dançar as defesas adversárias. É no “jogo exterior”, momento em que a velocidade de ritmo de jogo aumenta com a subida dos laterais (na esquerda Mendy é impressionante) e apoios por dentro dos alas canhotos, Lemar e Bernardo Silva, com uma dupla de ataque móvel e de presença na área (Falcão ou Germain). Um deles fica, o outro move-se).

Na mudança imprevisível de ritmos (mais do quem em mudar de 4x4x2 para 4x3x3 e vice-versa) está a “diversidade camaleónica” da equipa. Uma identidade que se pode exprimir de diferentes formas, mas que controla quando elas aparecem (não é em função do adversário). Em suma: um “camaleão (de dinâmica táctica) com identidade”.

3.

O Hull de Marco Silva é o protótipo de que o que se começa a construir desde trás não é a equipa mas sim o... jogo. A ideologia do treinador-Marco Silva não é a de jogar com linhas baixas mas, para começar a construir uma forma de jogar mais subida no terreno e em posse, percebeu que, no mundo de uma equipa pequena afundada na tabela a lutar por não descer, tinha de começar pela construção da consistência defensiva.

Assim, o seu Hull apresentou-se ao futebol inglês como uma equipa bem posicionada atrás (um 4x3x3 mascarado de 4x5x1 ou 4x4x1x1, solidificado num duplo-pivot N`Diaye-Hudlestone, com Evandro a temporizar à frente) que explora depois a profundidade de extremos também contratados em função duma dinâmica especifica de saída rápida (Grosiki-Markovic). Também o nº9 tem de ter essa dupla capacidade combatente-profundidade (Abel Hernandez, Mbokani ou Niasse). E, assim, a equipa pequena combateu (empatou, lutou até ao fim ou ganhou) às equipas grandes (Manchester United, Arsenal e Liverpool).

Ou seja, na construção do seu Hull com “modelo de emergência”, Marco Silva revela outro factor decisivo para o sucesso dum treinador: conhecer e explorar as características dos jogadores em especificidade. O primado da especialização para a cirúrgica interpretação do modelo e suas diferente posições. É outra espécie de “camaleão com identidade”.