Os craques é que escrevem o destino

22 de Maio de 2016

Podia parecer estranho para muitos jogadores após o recente estalar das rolhas de champagne mas ainda havia outro jogo para jogar. Quase “fora da caixa da época regular”, eis a Final da Taça da Liga. Talvez por isso, quando a bola começou a rolar parecia só existir uma equipa em campo a correr. O Marítimo meteu uma velocidade alta, criou oportunidades em face dessa diferença de ritmo e ameaçou Ederson.

Só que parece mesmo não haver forma de evitar os factores decisivos desta época. De repente, no meio da área adversária, onde as batidas do coração sobem e os jogadores multiplicam-se para tirar a bola, surgiu um jogador a marcar outro ritmo, impondo a sua serenidade. Parecia até que o jogo estava em câmara lenta e quase como “passageiro clandestino” do jogo, ele ganhou (encontrou) a bola e tocou-a para a baliza subtilmente. Era o traço de Jonas.
Mais uma vez, com classe, “roubou” o jogo ao resto dos vinte e um jogadores em campo e impôs a sua lei e o seu ritmo.

Faria depois o passe para a conexão Pizzi-Mitroglou (2-0) e, num ápice, aqueles dez minutos iniciais pareciam ter sido mera ilusão de óptica. Teriam existido mesmo ou foi imaginação nossa?
A verdade é que a noção da realidade que este Benfica de Rui Vitória tem não deixa muita margem para criar “castelos tácticos de areia”. Como era, afinal, aquele do inicial “Marítimo rápido” mas com “pés de barro” atrás.

Foi um jogo ideal para ser explicado através da “teoria da eficácia”. Aquela que explica os resultados pela simples equação de oportunidades de golo falhadas e concretizadas de um lado e de outro. Nessa perspectiva, porém, este teria então sido um “jogo de apenas onze minutos”, o tempo que demorou até o Benfica marcar como que ignorando todos os sinais que o jogo estava a dar até esse momento.
Tantas oportunidades com espaços vazios tão largos não são normais num jogo destes mas as marcas do desgaste “táctico-mental” (um cenário normal no final duma época longa) abriu clareiras na ligação entre sectores de ambas as equipas.

O jogo continuou assim com os “olhos bem abertos” até ao fim. O perigo iminente do golo em qualquer das balizas em face da pouca intensidade defensiva.
A forma como Gaitan (a passe de Jonas) “picou” a bola de forma insolente para o 4-1 fechou o “livro da época” benfiquista numa imagem. O destino são os craques que os escrevem.

Saber por onde crescer

grimaldo
Esta Final deixou também outras notas a reter nos dois onzes.
O Marítimo é uma equipa de quem fica sempre a sensação que tem valor para poder dar mais. Tem bons médios mas custou-lhe durante toda a época encontrar a melhor forma de os combinar (mesmo que mantendo sempre o 4x3x3). Perdeu uma referência clara para jogar a 6 (que parecia no inicio ir ser Fransérgio embora seja mais um 8) e acho estranho que Alex Soares não dê mais ao onze como titular de forma consistente. Eber Bessa é o que mais “trabalha” mas isso não significa que seja o que mais... jogue. Tem, porém, um “motor” dentro dele que o mete sempre no caminho da bola.
Onde a equipa pode crescer mesmo é através de João Diogo. Imaginava que esta época o fizesse crescer na especialização como médio-ala. Penso que a sua margem de evolução passa por ai para acabar melhor as jogadas que cria pela faixa. Acabou por recuar para lateral outra vez quando Nelo Vingada quis forçar o ataque (com Alex Soares).

Entre os últimos sinais que o onze “encarnado” deixa no fim da época, ficam as arrancadas de um pequeno latera-esquerdo espanhol. Grimaldo, 1,70m. A visão física que se tem do jogo quando se olha só para os jogadores antes do jogo...começar, provoca dúvidas imediatas. Como vai aguentar choques e o lado atlético do jogo? A solução está na sua forma de explicar como se faz para “jogar bem”. Foge ao contacto, acelera quando chega perto dos adversários e toca para ir buscar mais à frente. Afinal pode crescer. Não era assim tão “pequeno”. Porque sabe crescer no... jogo.